O Partido dos Trabalhadores no Distrito Federal caminha para as urnas de outubro com um velho problema que insiste em não sair de cena: a dificuldade de conciliar suas próprias correntes internas. O roteiro, desta vez, mistura tradição atropelada, pragmatismo nacional e um nome que ainda tenta se firmar como protagonista de uma disputa que promete ser das mais duras.
O estopim da crise atende pelo nome de Geraldo Magela. Histórico da legenda, Magela defendia o básico — ao menos dentro da liturgia petista: prévias. Um processo interno que permitiria ao partido medir forças, oxigenar o debate e, sobretudo, legitimar o escolhido. Não aconteceu. E, no PT, quando não há prévia, há ruído.
No lugar da disputa interna, prevaleceu a decisão vertical. O escolhido foi Leandro Grass, recém-chegado ao partido após deixar o PV, carregando no currículo a derrota ao Governo do DF em 2022 e, no presente, a vitrine institucional da presidência do IPHAN. Sua indicação teria vindo com o selo de Luiz Inácio Lula da Silva, o que, em tese, deveria pacificar o ambiente. Na prática, fez o oposto.
Nos bastidores, a leitura é de imposição. E imposições, em partidos de DNA ideológico forte, costumam cobrar preço alto.
Figuras históricas, como Érika Kokay e Agnelo Queiroz, evitam confrontos públicos, mas não escondem o desconforto. O silêncio, nesse caso, fala. E fala alto. O partido que já governou Brasília parece hoje dividido entre a memória de seu protagonismo e a dificuldade de construir um projeto competitivo no presente.
Grass, por sua vez, carrega o peso de duas narrativas conflitantes. Para o núcleo que o apoia, é o nome capaz de dialogar com setores mais amplos e renovar a imagem do PT local. Para os críticos internos, é um “corpo estranho”, um candidato importado, sem raízes orgânicas na legenda, e, pior, lançado sem a blindagem necessária para enfrentar um cenário adverso.
É aí que surge a expressão que mais circula, ainda que sussurrada: “bucha de canhão”. No jargão político, significa entrar numa disputa para cumprir tabela, sem reais chances de vitória, servindo mais a um projeto maior — neste caso, nacional — do que a uma construção local sólida.
O problema é que eleições não perdoam improvisos. E o Distrito Federal, com seu eleitorado altamente politizado e fragmentado, costuma ser implacável com candidaturas que nascem sob desconfiança.
O PT, que já foi sinônimo de organização e disciplina partidária, entra na corrida carregando fissuras visíveis. E, como ensina a velha máxima de Brasília, eleição não se perde apenas nas urnas, mas muito antes, dentro de casa.
Se não houver recomposição real, com engajamento das bases e unidade mínima de discurso, o partido corre o risco de transformar 2026 não em um ponto de retomada, mas em mais um capítulo de distanciamento do poder no Distrito Federal. E, nesse jogo, não basta ter candidato. É preciso ter partido.
