Que país é este? Feita pelo compositor Renato Russo em 1978 e refeita em 1987, ano de lançamento da música pelo grupo brasiliense Legião Urbana, a pergunta permanece sem resposta conclusiva até hoje. Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. Nosso céu tem mais estrelas, nossas várzeas têm mais flores, nossos bosques têm mais vida e nossa vida mais amores. Fora isso, nem respeito temos mais. Metade da nação luta pela perenização da democracia, mas a outra metade trabalha arduamente pela implantação do caos, do terrorismo e, quem sabe, do golpismo permanente.
O país não é mais do povo que o fez crescer. O país é da meia dúzia que tenta salvá-lo das garras dos ditadores ou da outra meia dúzia que dele quer se apossar para, por falta absoluta de competência, entregá-lo de mão beijada a administradores externos? Ninguém sabe! Caros e temerários, nossos Três Poderes vivem sistematicamente na berlinda. Ora são gatos, ora são ratos e, quando eventualmente se unem, são como urubus na carniça. Entra ano e sai ano, nos brindam com uma das mais elevadas cargas tributárias do mundo. Desnecessário falar de nossas altíssimas taxas de juros.
Em ano eleitoral, passam mel na boca dos eleitores e fazem uma obrinha aqui e outra acolá. Entretanto, o básico para que voltemos a acreditar no futuro da nação raramente sai do papel. E assim vamos vivendo um dia de cada vez, sem querer demais. É o que nos ensinam os governantes e os políticos com suas velhas e ultrapassadas teorias de resiliência. Eles sempre vencem e nós, a população, os pagadores de impostos, jamais alcançaremos o país das maravilhas. Somos naturalmente ricos e abundantes em alegria. O problema é que o que abunda às vezes prejudica.
Acostumados a comer o pão que o Diabo amassou e pagar por coisas que ele não gastou, não criou e não viu, o povo, seja aquele de perna cabeluda ou aquele outro com o que abunda raspado, só leva ferro. No alto da pirâmide, são milhares de cargos públicos à disposição dos amigos, 30 partidos registrados para se engalfinharem por verbas públicas, 513 deputados, 81 senadores e seus milhões de assessores brigando pelo Fundo Partidário e pelas emendas parlamentares pagas com o meu, o seu o nosso rico dinheirinho. Vivendo às custas do Erário, nenhum desses quer perder a abundância financeira.
A maior parte da arrecadação nacional está comprometida com a gulodice das excelências do Congresso Nacional, com a vitaliciedade e os penduricalhos dos homens de toga e com o azeitamento da máquina administrativa. Depois dos gastos eleitoreiros, sobra muito pouco para a abundância dos pobres. Na verdade, ficam somente as migalhas. É como aquele velho ditado que diz que nabunada só vai dinha. Nas comunidades, no Senado, nas facções e nas CPMIs do Congresso, o que vemos é sujeira pra todo lado. E não há hipótese de mudanças a curto e médio prazos. Talvez na próxima encarnação de todos os 213 milhões de brasileiros. Ou seja, ou morremos todos ou o país do amanhã só terá o ontem. No máximo, o mês passado.
Até mesmo o nosso bem maior, a democracia, segue ameaçada. Arduamente conquistada, o sistema mantido a duras penas pelo presidente eleito em 2022 corre o risco de voltar a sofrer as perversidades do negacionismo, do ódio barato e do salve-se quem puder. Respeito a posição daqueles que só querem se dar bem. Todavia, como o bom da vida é a reciprocidade, peço apenas que respeitem minha vontade septuagenária de não aderir à imbecilidade antivacinas e ao ódio à ciência, de odiar às boas coisas dos Estados Unidos e, principalmente, de preservar o lado bom do país e de combater com unhas e dentes a vigarice dos políticos e daqueles que lutam pelo poder exclusivamente como forma de manter seus interesses acima da sobrevivência da massa.
