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Extremismo cria ilusão no eleitor brasileiro

Por mais que se achem os provedores da seriedade política, os donos da honestidade eleitoral e mais patriotas do que qualquer semelhante, os representantes da direita, principalmente os da extrema-direita, precisam ser informados que eles são, direta e indiretamente, os principais responsáveis pelo descrédito da política e, sobretudo, pela fadiga eleitoral. Esquecidos de que política se faz com a construção do que nos une e não com as diferenças que nos afasta, os extremistas também não percebem que o grande erro do ser humano é se comparar com os outros e, na sequência, se frustrar por não ser igual ou melhor do que aquele ao qual observa e critica.

Talvez sejam essas as razões pelas quais alguém de sensibilidade apurada e de consciência plena sintetizou a pequenez política dos chamados conservadores na máxima de que toda pessoa de atitude incomoda os acomodados e assusta os simpatizantes do comodismo. As eleições de 2026 não será a primeira e talvez não seja a última em que a manipulação e o confronto ideológico permanecerão maiores do que a necessidade de se evitar que a política se transforme em condução dos negócios públicos para proveitos de particulares.

Conforme dados liberados pela Justiça Eleitoral, o eleitorado brasileiro passou de 154,29 milhões, em maio do ano passado, para 155,38 milhões no início de 2026. Entretanto, o aumento superior a 1,09 milhão não será suficiente para garantir o interesse da população no processo eleitoral. O crescimento contínuo da abstenção nas últimas eleições indica um caminho inverso. Boa parte do compilado de recentes pesquisas eleitorais sinalizam um evidente e irreversível desinteresse do eleitorado pela participação na política partidária.

De acordo com renomados cientistas políticos, as causas são variadas. Não sou especialista no assunto, mas tenho poucas dúvidas a respeito dos culpados. Em ascensão em parte do mundo, a extrema-direita tem aparecido graças a ações e campanhas sistemáticas de descredibilização da democracia. Especificamente no Brasil, a polarização disseminada sem critérios pelas redes sociais entre Luiz Inácio e a família Bolsonaro, ora representada pelo senador Flávio Bolsonaro, esvaziou o antigo ímpeto eleitoral da maioria dos brasileiros.

Por exemplo, como exigir comportamento de desconfiança daqueles que não são lulistas, mas fogem do bolsonarismo? Embora tenha posição clara a respeito do melhor candidato para o Brasil de hoje, faço parte da extensa lista dos que acham que a limitada e insana briga pelo poder quase zerou a concepção de que a política tem efeito real na vida das pessoas. Ou seja, jamais escondi minha predileção por uma terceira ou quarta opção. O que sei é que ela não virá tão cedo.

Cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Eduardo Grin vai mais longe na avaliação generalizada sobre o descrédito na política. Segundo ele, além de figuras nocivas que povoaram o cenário eleitoral e continuam povoando o imaginário dos eleitores, a ligação endêmica dos políticos com a corrupção e com práticas ilícitas diversas tem contribuído bastante para a desconfiança das pessoas em relação à democracia. Mesmo expurgados da vida pública, quem consegue esquecer de Carla Zambelli, de Eduardo Bolsonaro, Roberto Jefferson e de Alexandre Ramagem, entre outros? Difícil, considerando que o espectro político do país é dos piores.

Imaginemos o do Rio de Janeiro, Estado cujo eleitorado merece estudos avançados da Nasa. Condenado pelo Tribunal Superior eleitoral, o ex-governador Cláudio Castro faz parte de um grupo nada seleto e que reúne os sete últimos chefes do Poder Executivo local. A lista inclui todos os governadores eleitos nos últimos 30 anos. Não seria o caso de, em lugar de Moreira Franco, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão e Wilson Witzel, os cariocas e fluminenses voltassem a votar no Macaco Tião para governador? Acho que tanto no plano regional quanto no nacional, Tião ou o Rinoceronte Cacareco fariam melhor do que qualquer um da extrema-direita. A esquerda pelo menos nos promete a manutenção da democracia. Não é nada, mas estaremos longe do inferno.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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