Diletantismo significa dedicação a uma arte ou ofício exclusivamente por prazer. Boa, ruim ou para alertar, meus escritos sempre têm objetivo coletivo, ainda que a mensagem pareça particular. Embora não esconda minha opção (não posição) ideológica, não entendo como normal bajular ou atacar gratuitamente quem tem falhas ou acertos eventuais. Em resumo, apesar de viver em um mundo em que a inteligência só se conteve quando conseguiu substituir o homem por máquinas, jamais escrevo imaginando uma viagem ao mundo do faz de conta. Admiro a tecnologia como fonte geradora de um futuro que ainda está por vir, mas é impossível empurrar o presente para uma empoeirada e escondida prateleira no passado.
O governo que tentou de tudo para levar o Brasil para o ostracismo político deixou um rastro de tristeza e de dor que dificilmente será esquecido. Talvez nunca deixe de ser lembrado, principalmente porque foi por conta dele que, pela primeira vez, grupos insatisfeitos derrubaram simbolicamente os Três Poderes da nação. Simbolicamente porque se ativeram aos espaços físicos. O poder eles não alcançaram e jamais alcançarão. Dizer que não era esse o objetivo é tão infantil como comer frango com farofa em vias públicas somente para se mostrar popular. As mensagens trocadas não deixam dúvida de que o golpe era tramado dentro dos palácios do Planalto e do Alvorada desde a posse daquele inquilino peçonhento, em janeiro de 2019.
São águas passadas, mas, como está no livro de cabeceira de Alexandre de Moraes e no material encontrado no celular do tenente-coronel Mauro Cid, militares de patentes variadas tentaram, logo após a vitória de Luiz Inácio, convencer Jair Messias, conhecido nas rodas despatenteadas por 00, a efetivar o golpe. Escritas pelo coronel Jean Lawand Junior, à época subchefe do Estado-Maior do Exército, as mensagens eram claramente de estímulo ao ato antidemocrático. Pra lá de negativa, a tônica das mensagens era um indicativo de que, não houvesse o golpe, Jair seria preso na Papuda. Acabou na Papudinha. Talvez volte em breve para o recesso vigiado do lar.
Como é de conhecimento público, apenas meia dúzia de coronéis, generais e técnicos que não conseguem conviver com menos de dois contracheques fecharam com a tese golpista do presidente Mandrake. Tentaram quebrar o ovo da serpente fora das quatro linhas, mas, apesar do excesso de privilégios, fracassaram como gestores, como estrategistas, como homens públicos e como homens de bem. São os mesmos que ainda hoje vivem para criticar o governo e o governante sucessor. Irônica, leviana e criminosamente permanecem caladinhos diante das atrocidades e das barbaridades cometidas lá atrás pelo cidadão que se achava dono do mundo.
Tanto que, de forma despudorada, além dos rotineiros ataques à democracia, os homens de ouro do governo que nunca existiu insistem em avançar com suas teses odiosas, truculentas, ignorantes e inconstitucionais. Se acham superiores, embora pensem tão pequeno que, baseado em supostas glórias do passado, em crenças abstratas e no tacanho crescimento do conservadorismo de quinta série, não admitem eventuais rótulos negativos, entre eles o de obscuros, insanos, autoritários, abusivos e energúmenos.
E foram tantas as atrocidades que parcos quatro anos viraram um alentado dossiê sobre as condutas potencialmente criminosas do homem que veio de Marte para “liderar” a sanguinária extrema-direita brasileira. Disponível nas boas casas do ramo, o levantamento foi produzido com a finalidade de perpetuar a trajetória política do mito que só não levou o país à bancarrota graças à coragem de ministros do STF e da cúpula das Forças Armadas. E ainda se dizem preparados para mais quatro anos. O carnaval acabou e eles não tiraram as máscaras. Portanto, diletantismo à parte, o que não devo é me esconder dos fatos. Um dia a história contará a trajetória dos fatos e fakes do mito. Está na cabeça!
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978
