Aliados – e até mesmo marqueteiros do entorno do senador Flávio Bolsonaro – estão defendendo a presença de um nome nordestino como vice de uma chapa encabeçada pelo filho do ex-presidente Jair Bolsonaro para concorrer à Presidência da República em outubro próximo. Esse movimento, caso prevaleça, viria, antes de tudo, carregado de significado político. Não apenas pela matemática eleitoral, mas pela mensagem que tentaria transmitir a uma região que, há décadas, vota majoritariamente em candidatos do campo petista.
Analistas entendem que o Nordeste não é apenas um território no mapa das campanhas. É um ativo decisivo em qualquer disputa presidencial, uma vez que concentra um eleitorado numeroso e com forte identidade política. É assim, a região se consolidou como base fundamental das vitórias do PT desde 2002. Romper, ou ao menos reduzir essa vantagem, virou obsessão permanente de adversários.
A avaliação geral é a e que a escolha de um vice nordestino poderia cumprir três funções simultâneas, a saber:
1. ajudaria a suavizar a imagem de distanciamento cultural que parte do eleitorado associa à direita bolsonarista. Um aliado da região funcionaria como intérprete de sotaques, demandas locais e símbolos afetivos que pesam tanto quanto propostas econômicas.
2. poderia abrir portas para alianças estaduais, especialmente com lideranças que transitam entre o pragmatismo administrativo e a resistência em aderir formalmente ao lulismo. Em muitos estados, a política é menos ideológica e mais municipalizada; um vice com capilaridade poderia ajudar a reorganizar palanques.
3. serviria como sinal ao eleitor moderado de que a chapa buscaria ampliar horizontes e não apenas reafirmar a própria bolha.
Contudo, é nos bastidores que o jogo fica mais interessante. Reservadamente, articuladores da direita admitem que a definição do vice passa menos por carisma e mais por capacidade de entrega. Traduzindo: quem consegue montar palanque, atrair prefeitos, dialogar com bancadas federais e garantir tempo de televisão. A vice, nesse cálculo, vira um hub de alianças.
Nessa bolsa de apostas, alguns perfis costumam aparecer. A título de ilustração, são citados, embora preservados os nomes, governadores ou ex-governadores com imagem de gestores, que poderiam oferecer musculatura administrativa e trânsito com o empresariado local. São nomes que falam a linguagem do desenvolvimento regional, da infraestrutura e da geração de emprego, temas sensíveis para um eleitorado cansado de promessas abstratas.
Também entram na roda senadores jovens, com presença digital e discurso mais contemporâneo, capazes de dialogar com a parcela evangélica crescente e com setores urbanos que já demonstraram disposição para migrar de voto. Não bastasse isso, há ainda lideranças tradicionais, herdeiras de grupos políticos históricos, que talvez não empolguem nas redes, mas conhecem como poucos a engrenagem municipal nordestina. E em eleição apertada, essa estrutura vale ouro.
O problema, admitem esses mesmos aliados de Flávio Bolsonaro, é que cada escolha abre portas e fecha outras. Isso porque um nome muito identificado com elites econômicas pode afastar o eleitor popular – e um quadro excessivamente ideológico dificulta composições amplas. Já uma liderança vista como oportunista pode não transferir credibilidade nem para um lado nem para o outro.
Ao mesmo tempo, pesa a pergunta que ninguém faz em público, mas todos fazem no privado: o indicado realmente agregaria votos à chapa ou apenas confirmaria apoios que já viriam naturalmente?
É sabido que a força do PT no Nordeste não se explica apenas por identidade regional. Ela foi construída sobre redes duradouras de políticas sociais, memória afetiva dos governos Lula e presença constante de lideranças locais integradas ao projeto. Trata-se de um vínculo político que atravessa gerações. Portanto, um vice nordestino, isoladamente, não desmonta essa arquitetura.
Para estrategistas mais realistas, o objetivo talvez não seja vencer a região, mas reduzir a margem de desvantagem, e o simples fato de diminuir alguns pontos percentuais já mudaria o equilíbrio nacional.
Uma pessoa próxima ao senador Flávio Bolsonaro reconhece que no fim das contas, a escolha do vice poderá revelar o tamanho da ambição da chapa: se pretende apenas manter seu eleitorado fiel ou se está disposta a negociar linguagem, ampliar pontes e disputar territórios onde historicamente encontra resistência. E sem uma narrativa que converse diretamente com renda, emprego e proteção social, qualquer nome corre o risco de virar figurante de luxo.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras
