Pela segunda vez na história deste país republicano, o Senado rejeita uma indicação de um presidente da República para uma das 11 cadeiras do Supremo Tribunal Federal. Recomendado por Luiz Inácio Lula da Silva, o atual Advogado-Geral da União, Jorge Messias, obteve apenas 34 dos 41 votos necessários para sua aprovação. A primeira rejeição ocorreu em 1894, quando o Marechal Floriano Peixoto teve nada menos do que cinco nomes barrados para o STF. Ou seja, há 132 anos o Senado não reprovava uma indicação presidencial para a Corte Constitucional.
O caso mais emblemático foi o do médico-cirurgião Cândido Barata Ribeiro, rejeitado quando fazia dez meses que ele já atuava como ministro da Suprema Corte. A rejeição a Messias pode não significar o fim do governo Lula, mas indiscutivelmente é o maior revés de todos os tempos do petismo e um malogro pessoal para o currículo e para a biografia daquele que ainda é considerado o maior líder da esquerda brasileira.
À revelia do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), o evangélico Jorge Messias foi indicado por Lula da Silva para ocupar a vaga aberta por conta da aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso. Histórica, marcante e ruidosa, a desaprovação ocorreu em meio a um intenso debate sobre as decisões do Supremo Tribunal e o escândalo envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro, conhecido como o homem da mala. Obviamente que o Master foi só o pretexto.
Na verdade, está consolidada a oposição ao Lula 3 no Congresso Nacional, particularmente no Senado, casa de maioria oposicionista. Além de engolir o choro, resta a Lula e ao PT indicarem às pressas o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), menino dos olhos de Alcolumbre, esperar a poeira abaixar, escolher um nome que atenda a gregos e baiano ou dar tempo ao tempo e aguardar a eleição de outubro. Caso vença pela quarta vez, ele poderá indicar seu terceiro ministro do STF neste mandato. No acumulado, Lula é o recordista, com dez ministros nomeados para a Corte.
Ao contrário de Floriano Peixoto, que fracassou em decorrência de uma série de conflitos com o Tribunal da época, Lula perdeu de exibido. Ele foi avisado da possibilidade de um fiasco por Alcolumbre, por alguns ministros do próprio STF e por quase toda a torcida do Flamengo e do Corinthians. Bancou um nome que agradava a poucos senadores e agora se vê obrigado a assistir da geral à vitória da oposição, representada neste ato por Flávio Bolsonaro e o sempre bajulador Sérgio Moro. Coisas da democracia, mas um incômodo inesperado. Reitero que ainda é cedo para apostar no fim do Lula 3.
Entretanto, pode ser o começo do fim. A sorte do presidente da República é que as indicações para o STF ficam restritas à imprensa especializada e àqueles que se opõem aos nomes enviados ao Senado. Resumindo, é o tipo de assunto que pouco interessa à massa que vota e que elege presidentes. O insucesso de Luiz Inácio pode não ter alcançado a sucessão presidencial, mas certamente a rejeição acabou com as aspirações de Jorge Messias de galgar o sonhado posto de autoridade. O parquinho bolsonarista está em festa. Todavia, a lona do circo lulista permanece de pé. Torço para que essa briga de cães raivosos não contamine o eleitor. Para evitar a ruína do país e o nocaute do povo, oremos.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978
