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Idosos dirigem sem habilitação na zona rural de Aliança

Na zona rural de Aliança, na Mata Norte de Pernambuco, uma cena comum revela um dilema silencioso entre a lei e a realidade: idosos conduzindo motocicletas, carros antigos e até pequenos tratores sem possuir Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A prática, embora considerada infração gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), faz parte do cotidiano de muitas comunidades afastadas do centro urbano.

Em sítios e engenhos da região, dirigir nunca foi apenas um ato formal — sempre foi uma necessidade. Muitos dos idosos que hoje conduzem veículos aprenderam a dirigir ainda jovens, em tempos em que a fiscalização era quase inexistente e o acesso à habilitação era distante, caro e burocrático.

“Aprendi a dirigir com meu pai, pra levar cana e buscar mantimento. Naquela época nem se falava em carteira”, relata um morador de 72 anos da comunidade de Chã do Esconso.

Para esses condutores, o veículo é ferramenta de trabalho e meio de sobrevivência. Ele serve para ir à feira, transportar produção agrícola, buscar remédios ou enfrentar longas distâncias até o posto de saúde mais próximo.

De acordo com o CTB (Art. 162), dirigir sem habilitação é infração gravíssima, sujeita a multa e retenção do veículo. Em situações que gerem perigo de dano, pode configurar crime (Art. 309).
Apesar disso, na zona rural, a fiscalização tende a ser menos frequente. A prioridade das operações costuma se concentrar nas áreas urbanas e nas rodovias estaduais.

Especialistas em trânsito alertam, no entanto, que a idade avançada exige ainda mais atenção. Reflexos reduzidos, problemas de visão e audição podem aumentar o risco de acidentes — especialmente em estradas vicinais, muitas vezes sem sinalização adequada.

Outro ponto levantado por lideranças comunitárias é a dificuldade de acesso ao processo de habilitação. Para muitos idosos, deslocar-se até a cidade, pagar taxas e enfrentar exames práticos e teóricos se torna inviável.

Além disso, parte deles possui baixa escolaridade, o que dificulta a aprovação nas provas escritas.
Para especialistas em mobilidade rural, o problema exige mais do que fiscalização: requer políticas públicas específicas, como campanhas educativas voltadas à zona rural, programas facilitados de regularização e melhoria do transporte público intermunicipal.

A questão divide opiniões. Há quem defenda rigor absoluto da lei, visando à segurança coletiva. Outros pedem sensibilidade diante do contexto social e econômico da região.

Enquanto isso, nas estradas de barro que cortam os canaviais de Aliança, a rotina segue: motos levantam poeira ao amanhecer, carros antigos cruzam caminhos estreitos, e a cultura local continua moldando a forma como o trânsito é vivido no campo.

O desafio permanece: como equilibrar tradição, necessidade e segurança em uma realidade onde a lei nem sempre alcança a mesma velocidade da vida cotidiana?

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