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J&F, dona da Friboi, roeu os ossos dos velhinhos

No Brasil, há um velho provérbio que atravessa gerações como conselho de avó desconfiada. Sugere que “quando a esmola é grande, até o santo desconfia.” E se há um lugar onde esse ensinamento deveria estar gravado na porta de entrada é na repartição pública que lida com o dinheiro de quem trabalhou a vida inteira e agora sobrevive de uma aposentadoria magra.

Mas, como costuma acontecer na República tropical, a esmola virou negócio dos grandes. Os documentos que chegaram à CPMI do INSS indicam que o extinto programa Meu INSS Vale+, vendido ao público como um gesto de compaixão financeira para aposentados apertados, pode ter sido na prática um daqueles arranjos em que a caridade entra pela porta da frente e o lucro sai pela dos fundos.

Segundo dados analisados pelo COAF, uma conta ligada à holding J&F Investimentos, dos irmãos Wesley Batista e Joesley Batista, que detém, entre outras, a marca Friboi, teria enviado R$ 55,7 milhões para empresas vinculadas ao empresário Danilo Trento.

O detalhe que chama a atenção e faz qualquer santo pedir auditoria é a coincidência temporal. É que os repasses ocorreram entre dezembro de 2024 e abril de 2025, exatamente no período em que o programa Vale+ começava a operar.

Convenhamos que coincidências existem. Mas coincidências de quase 56 milhões de reais costumam ser mais raras. A título de recordação, o Vale+ nasceu com um discurso que ninguém ousaria criticar em voz alta, ao permitir que aposentados antecipassem parte do benefício para enfrentar emergências.

A proposta soava bonito, tinha sonoridade humanitária equivalente ao que é dito de um púlpito. O próprio INSS chegou a estimar que 38 milhões de brasileiros poderiam ser beneficiados. Mas, no mundo real, a matemática da caridade começou a ficar estranha.

O certo é que atraídos por uma proposta tentadora, mais de 341 mil aposentados aderiram ao sistema, movimentando cerca de R$ 252,5 milhões em antecipações. Desse montante, R$ 110,5 milhões foram pagos ao PicPay, banco digital ligado ao mesmo grupo empresarial.

É justamente aqui que surge outra curiosidade estatística digna de tese universitária, uma vez que embora três instituições estivessem habilitadas, apenas o PicPay operou de fato. No mercado financeiro, isso costuma receber um nome pouco romântico. Algo como exclusividade de negócios, por supostamente escusos que sejam.

O problema levantado pela Comissão de Inquérito do Congresso Nacional, atesta que o programa foi apresentado como adiantamento, mas funcionava como empréstimo disfarçado. As taxas que variavam de R$ 4,99 a R$ 20,99 eram cobradas sobre valores antecipados. Isso pode parecer pouco para quem movimenta bilhões, porém, para quem vive de benefício previdenciário, cada dez reais tem peso de feijão no prato.

O próprio presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, resumiu o problema com uma franqueza rara na burocracia federal, ao afirmar que tirar meros 450 reais de um aposentado pode significar não ter dinheiro para chegar ao fim do mês. Para quem não entendeu o golpe em português claro, vamos desenhar letra por letra: o programa flertava perigosamente com o autoendividamento dos idosos.

A partir daí o santo finalmente desconfiou. De um lado, a Febraban alertou que o modelo não tinha respaldo jurídico claro de outro, a Polícia Federal começou a investigar descontos ilegais em benefícios. Fechando o círculo, o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, acabou preso numa operação relacionada ao escândalo.

O programa foi suspenso em 2025 e, posteriormente, enterrado. Mas a CPMI agora tenta entender quem se beneficiou da sopa feita com os ossos da Previdência ou melhor dizendo, dos velhinhos aposentados. Porque, no frigir dos ovos — ou no leite já derramado — a impressão que fica é incômoda e mostra que a cachorrada era grande demais para caber apenas no quintal do INSS.

Essa é mais uma das velhas histórias brasileiras, onde escândalos costumam seguir um roteiro previsível: 1) nasce um programa social cheio de boas intenções; 2) entra um operador financeiro prometendo eficiência; 3) aparecem intermediários com trânsito em Brasília; 4) o dinheiro começa a circular; e, 5) quando alguém percebe, os aposentados já pagaram a conta.

O pior é que, no fim, ninguém quer saber quem trouxe a esmola. O que o país quer saber é quem ficou com o dinheiro do santo. E, se as investigações da CPMI avançarem como prometem, talvez descubramos que o golpe nos velhinhos não foi obra de um lobo solitário, mas de uma matilha inteira disputando os ossos dos aposentados.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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