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João Luiz entra na disputa por Brasília com a receita da saúde

Brasília começa a assistir ao surgimento de uma candidatura que não nasce dos gabinetes, mas das salas de cirurgia. O médico-cirurgião João Luiz, nome conhecido e respeitado na capital federal, filiou-se na terça, 24, ao PSD com um objetivo claro de disputar uma das oito cadeiras do Distrito Federal na Câmara dos Deputados. Na bagagem, uma pauta que vai além da saúde, e que toca diretamente no modo como o brasileiro vive.

A princípio, poderia ser apenas mais um médico defendendo melhorias no sistema de saúde. Mas João Luiz avança um passo além. Para ele, não há política de saúde eficaz se o próprio modelo de vida imposto ao trabalhador continua a produzir adoecimento em escala silenciosa.

Na visão do cirurgião, saúde não se resume a hospitais equipados ou filas menores. Trata-se de uma construção mais ampla, que passa necessariamente pela forma como o indivíduo vive, trabalha e se relaciona.

É nesse ponto que sua candidatura ganha contornos mais densos. João Luiz defende o fim da escala 6×1, um modelo que obriga milhões de brasileiros a trabalhar seis dias para descansar apenas um. Para ele, esse formato não apenas desgasta o corpo, mas corrói o equilíbrio emocional e familiar do trabalhador.

A crítica não é nova, mas ganha força quando vem de quem convive diariamente com as consequências desse desgaste. Nos consultórios e centros cirúrgicos, o médico afirma ver, com frequência crescente, pacientes que carregam no corpo e na mente os sinais de uma rotina exaustiva.

Para o novo filiado ao PSD, Chaplin ainda vive, lembrando o trabalhador engolido pela engrenagem. A metáfora que sustenta esse pensamento atravessa gerações. Em Tempos Modernos, de Charles Chaplin, o operário é engolido pela máquina, transformado em peça de uma engrenagem que não para.

Décadas depois, a cena permanece atual, mesmo que apenas mudando de cenário. Sai a fábrica, entram os escritórios, o comércio, os aplicativos, os hospitais e os serviços. Mas a lógica permanece a mesma, de produzir mais e descansar menos.

João Luiz parte exatamente dessa constatação para defender uma mudança estrutural. Para ele, o homem não nasceu para viver apenas em função do trabalho. Nasceu também para viver — e isso inclui tempo para a família, para o lazer, para o descanso e para si mesmo.

Ao acenar para o fim da escala 6×1, o médico pré-candidato toca na questão prevenção, um ponto sensível da saúde pública. Na opinião dele, em um país onde crescem os casos de ansiedade, depressão, burnout e doenças relacionadas ao estresse, reduzir a sobrecarga de trabalho pode significar menos internações, menos afastamentos e mais qualidade de vida.

Trata-se de uma lógica simples, mas frequentemente ignorada. Ou seja, quanto menos adoecido está o trabalhador, menor será a pressão sobre o sistema de saúde. E quanto mais equilibrada for sua rotina, maior tende a ser sua produtividade, principalmente sem o custo humano que hoje se naturaliza.

A entrada de João Luiz na política partidária não é apresentada como ruptura, mas como extensão de sua trajetória. O que ele fez durante anos na medicina, como cuidar de pessoas, pretende agora ampliar para o campo legislativo.

Em um Congresso frequentemente marcado por disputas ideológicas estéreis e pautas desconectadas da vida real, sua candidatura tenta se posicionar como uma voz ancorada na experiência concreta. E Brasília, com suas desigualdades internas e seus desafios históricos na área da saúde, pode encontrar nesse movimento mais do que um nome técnico: uma proposta de reorganização do olhar sobre o cidadão.

No fim das contas, a mensagem central de João Luiz é tão simples quanto incômoda, porque, do ponto de vista dele, o trabalho não pode ser o eixo absoluto da existência humana. E defender o fim da escala 6×1 é, antes de tudo, defender o direito ao tempo para estar com os filhos, para cuidar da saúde, para viver sem a permanente sensação de exaustão.

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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras

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