Descoberta pelos europeus em 1526, Santa Catarina é uma das 27 unidades federativas do Brasil. Com respeito aos tradicionais e ainda patriotas barrigas-verdes, mas, para milhões de brasileiros, melhor que deixasse de ser. Embora seja admirador da história, do colorido, da cultura e das belezas naturais e materiais catarinenses, sou um dos que acham que o estado parece dar sinal de esgotamento político. Dia desses, em pleno verão, o governo local investiu milhões de reais no horário nobre da Globo Luxo. Mais do que um convite, o reclame era um apelo para que os brasileiros visitem o outrora internacional litoral catarinense.
De imediato associei o anúncio ao afastamento dos turistas nacionais do estado governado ideológica, fanática e freneticamente pelo bolsonarista Jorginho Mello. Nada contra quem vota ou apoia o ex-presidente Jair Messias. Entretanto, nada a favor de um governante que se acha acima de qualquer suspeita e que abriu as fronteiras do seu estado para o novo ninho do lagarto. Tanto que, como defensor raiz da ditadura e da “honestidade”, é um dos governadores que surgiu politicamente na esteira daqueles que adoram chamar Lula de ladrão.
Logo ele que governa um Estado com 259 municípios, dos quais 29 (mais de 10%) já tiveram problemas sérios com a Justiça. Conforme a amiga e companheira de narrativas Dona Irene, desde 2020 Santa Catarina já teve 29 prefeitos presos por corrupção e fraudes na administração pública. Se ela ficou completamente pasma, imagina eu que, embora pesquisadora assídua das mazelas políticas do país, passei a conhecer um pouco mais do Estado quando percebi a necessidade de o povo local permitir que a família Bolsonaro fincasse suas apodrecidas raízes entre os barrigas-verdes e os manezinhos, gentílico dos nascidos em Florianópolis.
Como disse Dona Irene, é uma realidade que, a princípio, parecia inacreditável. Não é. Algo que já esteve certo está muito errado em Santa Catarina. Outrora tido e havido como uma das mais promissoras unidades da Federação, o Estado lembra hoje uma gestão de compadrio. Ainda que não haja parentesco algum, a relação visceral de Jorginho Mello com o clã Bolsonaro é muito maior do que um simples, mas forte sentimento de amizade ou de cordialidade. Há algo de mais profundo – ou de podre – no reino catarinense.
Estou longe. Entretanto, não é difícil imaginar um povo que já se orgulhou de Vera Fischer, Gustavo “Guga” Kuerten, Rodrigo Hilbert, dos jogadores Filipe Luís e Paulo Roberto Falcão e dos magistrados Luís e Paulo Gallotti, ter de engolir dois dos cinco filhos de um cidadão que se autodenominou mito, mas que, após quatro anos de mandato presidencial, desagradou gregos, baianos, troianos, açorianos, os lagartos da Baía de Guanabara e até as rãs do Lago Paranoá. Pelo menos para os catarinenses, ele já produziu Renan Bolsonaro, o vereador mais votado de Balneário Camboriú. Para Dona Irene, aparentemente o catarinense não está sabendo votar.
Esse é o único ponto de nossa discordância. Baseado no desembarque consentido dos Bolsonaro no estado, tenho certeza disso. Não sei se é o caso dos eleitores de Camboriú, mas, como diz a Bíblia, quando os perversos estão no poder, o povo geme. Carioca que embarcou do Rio de Janeiro para Santa Catarina por causa do “povo trabalhador e honesto” do estado, Renan cuspiu no prato que comeu e deve ser seguido pelo irmão Carlos Bolsonaro, candidato ao Senado por imposição do governador Jorginho Mello. Será que o povo catarinense merece mesmo essa penitência? Acho que sim. Como viver é melhor do que sonhar, torço para que a patrulha canina aporte em Santa Catarina antes que o estado se transforme em uma cova profunda recheada de galhos pequenos.
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Sonja Tavares é Editora Política de Notibras
