Investigar o episódio Banco Master/BRB, não é um reality show como imaginam alguns políticos oportunistas. Le duela a quien le duela, a Polícia Federal tem o dever de ir ao fundo do poço para apurar o escândalo financeiro gerado a partir das supostas negociações de Daniel Vorcaro. Indiciar os envolvidos e os beneficiários é uma obrigação do Estado. Até agora, as investigações conduzidas pela PF apontam para fraudes financeiras.
De acordo com as apurações, a quebra do Master atingiu mais de 1,6 milhão de clientes. A previsão é de um rombo superior a R$ 47 bilhões. O que mais tem chamado a atenção da PF é o trânsito que Vorcaro mantinha – ou mantém – tanto no ambiente político quanto jurídico do país. Claramente, a sujeira é generalizada. Portanto, no país em que um pai de família vira bandido porque roubou uma peça de carne para alimentar os filhos, não há que se pensar em transformar em herói quem lesa o Erário, deve ao Fisco e engana pequenos investidores.
Antes que essa dívida do lixo sobre para o povo, a primeira coisa a se evitar – se possível, promover caminhadas contra – é, na esteira de doações milionárias para campanhas, é a politização da discussão a respeito do desvio dessa dinheirama para bolsos sujos. Uma coisa é a investigação da Polícia Federal. Outra coisa é a caça às bruxas, sejam elas somente suspeitas de envolvimento ou sabidamente com trabalhos prestados a Vorcaro. Não cabe a bolsonaristas, lulistas ou afins insatisfeitos com o STF pedir o impeachment desse ou daquele ministro.
Do mesmo modo que é obrigação do governo, por meio da PF, investigar com lupa mais esse episódio, é dever do Congresso Nacional instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito que pense e aja diferente de todas as centenas que o Brasil já acompanhou. Além do distanciamento do fisiologismo, do fanatismo e, principalmente, da ideologia, a CPI precisa ser mais séria do que a Estátua da Liberdade, se ater exclusivamente às obrigações republicanas e ficar o mais longe possível da politicagem.
Como o contribuinte imagina que a Polícia Federal está fazendo, a investigação tem de ser profunda, transparente e conduzida com o máximo rigor da lei. Esse é o único caminho capaz de separar fatos de insinuações, denúncias de denuncismo e roubalheira de revanchismo. Politizar a discussão de tema raivosamente interessante para todos os brasileiros é um evidente sinal de que os políticos ávidos por protagonismo tentarão se despreocupar com o criminoso. A ordem é preservar as instituições e a confiança pública nas três esferas de poder, particularmente no Judiciário, o único que, em tese, não pode falhar e que, republicanamente, tem de ser cego para os dois lados.
Reitero que, le duela a quien le duela, a justiça prevaleça e que os injustiçados encontrem a reparação que merecem. O momento é de apuração. Seja do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário, quem errou terá de reparar seus erros e ponto final. O que precisa ser definitivamente contido é o adoecimento legalista do Brasil, nação em que o hábito de uns e de outros é dizer que, por aqui, a democracia é relativa, a corrupção absoluta e a Justiça inexistente. Torcendo para que o país volte rapidamente à normalidade, recuo no tempo e lembro da verborragia de Salvador Allende, ex-presidente do Chile, assassinado em 1973. Conforme Allende, “Não basta que todos sejam iguais perante a lei. É preciso que a lei seja igual perante todos”. Que assim seja!
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais
