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Kiko Caputo entra no jogo do tabuleiro da sucessão

A madrugada em Brasília pode até soprar ventos amenos, mas nos bastidores do poder o clima é de fervura. E quem chega para aumentar a temperatura é o advogado Kiko Caputo, que prepara o anúncio oficial de sua pré-candidatura ao Palácio do Buriti pelo Partido Novo.

Não se trata de uma aventura política improvisada. Caputo entra na disputa com discurso técnico, lastro jurídico e, sobretudo, com a convicção de que pode se transformar em protagonista de uma eleição que, até aqui, parecia caminhar por trilhos já conhecidos.

Mas, como se sabe, em Brasília nada é definitivo, e o jogo começa nos bastidores. Antes mesmo de colocar o bloco na rua, Caputo já se movimenta com precisão cirúrgica. Conversa em tom solene com a deputada distrital Paula Belmonte, hoje no PSDB, sobre a possibilidade de composição de chapa. A ideia é tê-la como vice.

Nos bastidores, o ex-senador Antônio Reguffe, hoje no Solidariedade, atua como entusiasta e fiador político dessa construção. Nome de trânsito limpo junto ao eleitorado mais exigente, Reguffe surge como peça-chave para dar densidade eleitoral ao projeto. E se decidir disputar uma cadeira de deputado federal, será um grande puxador de votos.

Mas o tempero mais forte dessa panela política atende pelo nome de José Roberto Arruda. Inelegível até segunda ordem, o ex-governador depende de uma decisão da ministra Cármen Lúcia, no âmbito do Supremo Tribunal Federal, para tentar voltar ao jogo. O prazo vence no dia 9 de junho, data que pode redefinir completamente o cenário eleitoral do Distrito Federal.

Caputo, como bom jurista, não se ilude, e trabalha com o cenário de inelegibilidade mantida. E é aí que entra a jogada de mestre. Porque, caso Arruda fique fora da disputa, abre-se um vácuo, tido como um verdadeiro “curral eleitoral” órfão de comando. E Kiko aposta que pode ocupar esse espaço não sozinho, claro, mas com um grupo que, curiosamente, mantém bom trânsito com o ex-governador.

Nos corredores, já se fala em algo mais ousado. É uma eventual composição indireta com o PSD, legenda de Arruda, com direito até à indicação de um nome ao Senado na chapa majoritária. Se confirmadas, essas articulações não apenas fortalecem a candidatura de Kiko Caputo, como reposicionam o eixo da disputa na capital da República.

De um lado, um projeto que tenta se vender como técnico, jurídico e de gestão. De outro, uma engenharia política que flerta com o pragmatismo clássico da cidade, onde costumam aparecer alianças improváveis, transferência de votos e rearranjos de última hora.

Por enquanto, Brasília assiste ao nascimento de uma candidatura que pode ser mais competitiva e menos ser disruptiva. E, como ensina a velha máxima do poder, eleição no Distrito Federal não se ganha apenas nas urnas, já que começa muito antes, nos sussurros bem calculados da madrugada.

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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras

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