A mais recente pesquisa do Instituto Paraná, realizada na véspera do Natal com entrevistas em todas as regiões do país, recoloca o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na dianteira dos cenários eleitorais para 2026. A leitura apressada sugere conforto para o Planalto e dificuldades para a oposição, em especial para o senador Flávio Bolsonaro (PL). Uma análise cuidadosa, porém, indica um quadro bem mais complexo e totalmente inconclusivo.
O levantamento revela não apenas preferências momentâneas do eleitorado, mas também vieses estruturais de amostragem, escolhas metodológicas discutíveis e sinais objetivos de mudança na dinâmica política, especialmente no campo conservador.
Um dos pontos centrais do estudo é a super-representação de eleitores fora da População Economicamente Ativa (PEA). A pesquisa atribui 35,4% da amostra a esse grupo — aposentados, desempregados e beneficiários de políticas sociais — um contingente que historicamente apresenta maior afinidade com Lula.
Os próprios dados internos confirmam o efeito:
Lula tem 40,6% entre não PEA
Cai para 35,5% entre eleitores da PEA
Essa composição inflaciona o desempenho médio do presidente, criando uma vantagem estatística que não se distribui de forma homogênea no eleitorado economicamente ativo, mais exposto à inflação, ao mercado de trabalho e à avaliação cotidiana do governo.
Outro fator relevante é o peso elevado de eleitores com menor escolaridade:
75,8% da amostra têm até o Ensino Médio
Apenas 24,2% possuem Ensino Superior
Nos recortes, Lula apresenta desempenho significativamente melhor entre eleitores com Ensino Fundamental (44–45%), enquanto cai para cerca de 30% entre os de nível superior. Isso sugere que o levantamento sub-representa o eleitor urbano, conectado e mais crítico, especialmente presente nas grandes capitais — um segmento decisivo em disputas apertadas de segundo turno.
Efeito Nordeste
Embora a pesquisa seja nacional, há um desequilíbrio regional importante. É que no universo de entrevistados, 562 estão no Nordeste, contra 295 entrevistas na região Sul. O impacto direto é claro: Lula tem cerca de 49% no Nordeste e apenas 24–26% no Sul.
Ainda que o Nordeste seja eleitoralmente relevante, seu peso na amostra supera sua influência relativa em um segundo turno competitivo, puxando a média nacional para cima. O resultado é uma fotografia favorável ao presidente, mas menos representativa do Brasil polarizado que decide eleições apertadas.
Nos cenários apresentados, Lula aparece sistematicamente como polo único, enquanto a oposição surge fragmentada: Bolsonaro, Flávio, Tarcísio, Michelle, Zema, Caiado, Ratinho Jr e até Ciro Gomes são testados simultaneamente. Esse efeito é previsível, sugerindo que o voto anti-Lula se divide. Em outras palavras, o presidente lidera sem maioria absoluta. Uma figura ilustrativa aponta o seguinte:
Lula: 37,6%
Flávio Bolsonaro: 27,8%
Outros nomes somam cerca de 25%
Trata-se, portanto, de uma liderança estatística, não necessariamente política, já que não simula a convergência oposicionista típica de um segundo turno real.
Outro ponto metodológico relevante é a comparação desigual entre atores, uma vez que Lula é testado como presidente em exercício, figura hiperconhecida, enquanto seus adversários ainda estão em processo de nacionalização.
Além disso, mesmo sem perguntas explícitas de avaliação de governo, o efeito incumbência opera de forma simbólica, favorecendo quem já ocupa o centro do poder e do noticiário.
Talvez por isso o dado mais revelador da pesquisa seja a estagnação de Lula nos cenários de segundo turno, onde ele não rompe 45% em nenhum confronto, variando entre 43,6% e 44,1%, seja contra Flávio ou Tarcísio. Isso aponta um teto eleitoral claro de alta rejeição residual e uma liderança mais estatística do que expansiva. Segundo cientistas políticos, em eleições presidenciais, essa combinação costuma indicar vulnerabilidade.
Quando se fala em sucessão, o fator religião é subestimado. O levantamento do Instituto Paraná indica, por exemplo, que entre eleitores evangélicos, os números são consistentes, onde Lula surge com índices de 25–26%, cabendo a nomes do campo conservador entre 32% e 42%
Embora o segmento não receba grande destaque na narrativa da pesquisa, trata-se de um eleitorado altamente mobilizável, com forte capacidade de engajamento em campanhas e peso decisivo em segundo turno. Vale observar que os números capturam apenas uma fotografia estática, não o potencial de ativação política desse grupo.
No cômputo geral, enquanto Lula permanece estável, os números mostram crescimento acelerado da oposição, em especial de Flávio Bolsonaro. Em outubro o filho do ex-presidente surgia com 19,2% da preferência do eleitor; subiu em novembro para 19,7% e já em dezembro alcançou a marca de 27,8%. Na ponta do lápis, um salto de quase nove pontos em dois meses. Já Lula oscilou entre 36% e 38%, sem tendência clara de alta.
As manchetes jornalísticas de que “Lula lidera” são corretas, mas incompletas. O dado mais relevante não é a posição atual, e sim a trajetória. Uma análise mais meticulosa da pesquisa sugere que o presidente tem uma liderança empurrada, e a disputa está aberta, uma vez que favorece Lula do ponto de vista estatístico, não comprova força eleitoral consolidada, subestima a reorganização do campo conservador e, por fim, inflaciona a liderança por desenho amostral e cenários fragmentados.
Em síntese, o diagnóstico é frio e cristalino. Lula lidera porque o modelo empurra, não porque o eleitor avança. Portanto, não é inconsequente escrever que a 10 meses para as eleições, o cenário segue aberto. A disputa real dependerá menos da fotografia atual e mais da capacidade de cada campo em reduzir rejeições, unificar forças e responder às tensões econômicas, religiosas e culturais que vêm moldando o eleitorado no Brasil. Tudo isso em estreita sintonia com a tendência conservadora observada em parte das Américas e da Europa.
………………….
José Seabra é CEO fundador de Notibras
