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Lula vai jogar fora fósforo que pode queimar urnas do PT

Nos bastidores do poder, definido em Brasília como um teatro onde convicções são plantadas como notas frias, tenta-se vender a recondução de Leonardo Cardoso de Magalhães à chefia da Defensoria Pública da União (DPU) como “fato consumado”. A tese, repetida à exaustão por seus entusiastas, soa menos como certeza e mais como propaganda de corredor. Porque, na prática, o que se vê é o oposto, Porque ‘Léo’, para os íntimos, é apenas um nome que acumula passivos e se transforma, dia após dia, em um constrangimento político para o governo Lula, diante de um cenário bem menos dócil do que já foi.

Convém lembrar que em dezembro de 2023, Magalhães passou com louvor no Senado — 19 a 0 na CCJ, 47 votos no plenário. Na época, o Planalto chamou de pragmatismo o que, no fundo, foi um recuo estratégico após a fritura de Igor Roque, considerado “progressista demais” para paladares conservadores. O acordo funcionou, mas apenas naquele momento. Hoje, virou pó. O que antes era acomodação virou isolamento, e os senadores, como se sabe, não gostam de ser tratados como cartório de carimbo automático.

Aliás, poucos espetáculos irritam mais os senadores do que essa velha tentativa de impor nomes pela imprensa, como se manchete substituísse sabatina. A Casa tem uma memória carregada, inclusive, de vaidade. E quando percebe que querem empurrar goela abaixo um “fato consumado”, seus legisladores costumam reagir como quem fecha a porta na cara. E com gosto.

Mas o problema de Magalhães vai além do rito. A digital bolsonarista que emerge das mensagens reveladas na CPI da Covid não é detalhe — é veneno político. Ser descrito como “alinhado com os nossos valores” e “apoiador do Jair”, em conversas ligadas ao núcleo familiar de Jair Bolsonaro, não é exatamente o tipo de credencial que se exibe em um governo que ainda tenta se descolar da sombra da polarização. Para a base lulista, isso não é apenas desconforto; ao contrário, é quase uma heresia institucional.

E como se não bastasse o flerte ideológico indigesto, entra em cena a atuação na CPMI do INSS, um capítulo mais espinhoso. O acordo conduzido pela DPU sob sua gestão, vendido como solução para ressarcir vítimas de fraudes bilionárias, passou a ser visto por críticos como uma espécie de “anistia branca”, onde paga-se a conta e segue o baile. Para quem foi lesado, resta o consolo tardio; para quem fraudou, a suspeita de que o custo do crime virou apenas mais um item contábil. Não por acaso, parlamentares já pedem explicações formais. E com razão.

Para o governo Lula, que tem nos aposentados uma base eleitoral sensível e numerosa, associar-se a esse enredo é brincar com fósforo em depósito de gasolina. A recondução de Magalhães, nesse contexto, não seria apenas um erro político, e sim um gesto de autossabotagem, desses que dispensam adversários.

Para analistas políticos ouvidos por Notibras, a tal “certeza” da recondução não passa de um balão de ensaio inflado em gabinetes e soprado para fora como verdade inevitável. Mas a realidade, por mais inconveniente que seja, insiste em mostrar que Magalhães está longe de ser incontornável. Na verdade, o ainda chefe da DPU tornou-se contornável demais. E, em política, quando um nome precisa ser empurrado com tanta força, é sinal de que já não se sustenta de pé.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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