No último lance de seu jogo político, Jair Bolsonaro criou o fato que faltava para consolidar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Apesar da recomendação clínica da Polícia Federal, a tão sonhada cirurgia de emergência da hérnia inguinal do ex-presidente me parece mais um de seus factóides. A urgência do procedimento precisa obedecer a critérios básicos, entre eles inchaço no local, dor intensa e súbita na região, náuseas e vômitos, vermelhidão, roxidão ou escurecimento da protuberância e dificuldade ou ausência de evacuação/gases.
Não vi, tampouco ouvi falar que os laudos pré-operatórios eram determinantes para a intervenção. Como também sou idoso, anualmente me valho de variados especialistas para os acompanhamentos de praxe. Há três anos, em um desses exames urológicos comuns, descobri que sou proprietário de duas hérnias inguinais bilaterais. Elas não têm alteração, não sofro de nenhum dos citados sintomas, não sou candidato a nada, não estou preso e não tenho precisão momentânea alguma de mandar recados ou de ser lembrado por alguém.
Portanto, me faltam argumentos para me submeter a um evento, invasivo ou não, com objetivos que não sejam o de minha integridade física. Considerando que a cirurgia de Bolsonaro realmente tinha urgência, por que a vinculação política? Perdão pela sinceridade, mas divirjo da necessidade de um ser humano comum concorrer com Jesus Cristo na mídia nacional e internacional justamente no momento em que fervem as definições no ambiente eleitoral, particularmente na direita, espectro do qual Jair Messias ainda se acha dono ou o principal acionista.
Felizmente, a intervenção foi realizada com sucesso. Entretanto, me pareceu que a informação foi menos relevante do que a carta escrita por Jair e lida por Flávio em frente ao hospital. No documento, o ex-presidente transfere para o filho 01 o compromisso “de não permitir que a vontade popular seja silenciada”. No texto, contra e contra todos, ele indica oficialmente o senador Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência da República em 2026. Sem qualquer alusão à facada durante a campanha de 2018, mas o gesto de pai para filho é uma faca de dois gumes.
Para início de conversa, o senador Flávio Bolsonaro não tem o apoio do Centrão, não é simpático aos demais partidos da direita, não dispõe de material político para um cargo tão pesado, é considerado incapaz pela maioria dos pares e vem recebendo fortes críticas de um dos maiores aliados do pai, o pastor Silas Malafaia. Em outras palavras, Bolsonaro foi picotado pela oitava vez, mas, nesse jogo de gatos contra um único rato, é bem mais embaixo o buraco da candidatura de 01.
Como aparentemente hérnias inguinais nada têm a ver com soluços, ainda resta mais um factóide para o clã. Além de todas as dificuldades que Flávio terá de enfrentar internamente, o povo brasileiro está cansado das mentiras da família e do sensacionalismo gerado por cada uma delas. Por fim, embora saiba que milhares de brasileiros acham o contrário, vejo os familiares e seguidores oportunistas comemorando muito mais a indicação de Flávio para disputar o Palácio do Planalto com Luiz Inácio. Ou seja, às favas as hérnias inguinais. No momento, importante é o desejo incontido em se manter no topo do poder. Tem gosto para tudo.
