No réveillon de 1976, a música mais tocada em todo o Brasil tinha a marca de um famoso grupo musical da época. Naquele fim de ano, Os Incríveis estouraram com a canção Marcas do que se foi. De autoria de José Jorge, Márcio Moura, Paulo Sérgio Valle, Ruy Mauriti e Tavito, a letra era um libelo à paz, à união e à amizade. O verso “Quem quiser ter um amigo, que me dê a mão” deixava (e deixa) claro que o apoio mútuo é essencial para enfrentar as mudanças do tempo. O que poucos sabem é que a canção foi encomendada em meados de 1976 a uma produtora de jingles por ninguém menos que o então presidente da República, general Ernesto Geisel. Coincidências da vida, em janeiro de 1977 o democrata Jimmy Carter assumiu a presidência dos Estados Unidos.
Carter sucedeu o republicano Gerald Ford, que empresta seu nome ao maior porta-aviões do mundo, do qual partiu a tropa que sequestrou o ditador Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Adelia Flores. Gravada em vários idiomas e regravada, entre outros, por The Fevers, Nenhum de Nós, Roupa Nova, Dom & Ravel, Zezé Di Camargo & Luciano e Padre Marcelo Rossi, Marcas do que se foi virou um clássico e se transformou em um hino do réveillon, cantada até hoje de Norte a Sul do país. Curiosamente, eu não a ouvi durante o período em que Jair Bolsonaro esteve na Presidência da República. A explicação tem duas vertentes. O governo Geisel foi marcado pelo início de uma abertura política consolidada pelo também general João Batista Figueiredo e pela amenização da repressão imposta pela ditadura militar.
Desprezado pelos militares de alta patente, o capitão Bolsonaro, à época conhecido como uma das “vivandeiras da ditadura”, fez o que pode contra a abertura. Além disso, embora não diga, até hoje ele não digeriu a frase cunhada por Ernesto Geisel para marcar o passado de caserna do ex-presidente Jair Messias: “Um mau militar”. Ou seja, Bolsonaro tinha razões de sobra para evitar manifestações oficiais na busca de um ano novo de paz e de muito amor. Por razões que a própria razão desconhece, Luiz Inácio e seus colaboradores também arquivaram a canção.
Na expectativa de que 2026 seja pleno de luz, esplendor e, sobretudo, esperança, o mundo despertou nesse sábado (3) com explosões dando boas (?) novas ao povo venezuelano. Rápidas, mas certeiras, as bombas tinham como alvo o casal Maduro e o amontoado de poços de petróleo do país. O narcotráfico era apenas o pretexto para a descabida invasão. A partir de agora, Donald Trump comanda os Estados Unidos e dá ordens na Venezuela e em sua produção petrolífera. Apesar do medo dos latino-americanos, por enquanto Trump parece satisfeito com a conquista. Ainda envolvido no foguetório do limiar de 2026, ano eleitoral, obviamente que o povo brasileiro se inquietou diante da invasão dos EUA à Venezuela.
Repetida à exaustão nas filas de padarias e supermercados, a pergunta era simples e objetiva: Pode respingar em nós? Considerando que Lula não é ditador e que, em relação ao Brasil e aos brasileiros, o salteador dos EUA certamente respeitaria todos os indicativos da ONU, digo que não. Também devemos lembrar os instantes juntos, a química, os telefonemas, as reações de Trump ao sedutor Luiz Inácio Lula da Silva e, principalmente, as reservas de terras raras. Como o Brasil tem a segunda maior reserva do mundo, tudo depende dos futuros embargos auriculares entre ambos. Hoje, diria ainda que são remotas as chances de Donald Trump e seus comensais interferirem nas eleições presidenciais de outubro em favor de Jair Bolsonaro ou de algum de seus asseclas.
O interesse geopolítico do governo norte-americano no Brasil pode ser negociado com qualquer um, inclusive com Lula. Portanto, mesmo sabendo que precisa saltar de pantufas nas terras raras e pisar em ovos nas negociações com os EUA, o presidente brasileiro dificilmente chamará para si a inimizade do czar das Américas. Então, estamos salvos? Pelo menos do clã Bolsonaro, sim. A exemplo de Maria Corina Machado, líder da oposição na Venezuela e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Trump não aposta mais em Jair Bolsonaro ou em alguém de sua constelação. O argumento é o mesmo usado com Corina: “Ele não tem apoio, tampouco respeito dentro do país”. Por tudo isso, a mensagem de Marcas do que se foi mantém firme a ideia de que desafios e memórias recentes criaram laços que ainda não são vistos como marcas do passado. O desejo de paz e amizade deve permanecer entre Trump e Lula. Assim eu espero. “O tempo passa…Nossos passos pelo chão vão ficar”. Tomara!
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras
