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Marqueteiros enterram escrúpulos e levantam diferentes bandeiras

No submundo elegante da política brasiliense, onde o perfume do poder disfarça o cheiro do oportunismo, uma categoria vem se destacando com notável elasticidade moral. São os marqueteiros que se dizem profissionais mas que, de olho não no futuro do próprio bolso, deixam os escrúpulos de lado em nome da própria sobrevivência e servem, sem corar, simultaneamente a Deus e a Mamon.

Na prática, fazem da ideologia um figurino de ocasião. Vestem a direita pela manhã, almoçam com o centro e jantam à mesa da esquerda, sempre com o mesmo sorriso ensaiado e o discurso moldável como cera quente. Para eles, não há contradição que resista a um bom contrato nem convicção que sobreviva a uma proposta melhor.

Em Brasília, onde o poder muda de mãos com a velocidade de uma caneta em despacho oficial, esses profissionais operam como verdadeiros camaleões. Criam campanhas paralelas, às vezes conflitantes, para candidatos que, em tese, deveriam ser adversários inconciliáveis. Mas, nos bastidores, compartilham o mesmo roteirista, o mesmo estrategista e, não raro, o mesmo discurso embalado com palavras diferentes.

O mantra do mercado publicitário é simples, direto e desprovido de qualquer pudor, já que se trabalha para quem está vencendo, sem perder de vista quem pode vencer. Trata-se de uma filosofia pragmática, onde ética é artigo de luxo e lealdade virou peça de museu. O compromisso não é com projetos, muito menos com ideias. É com o resultado e, sobretudo, com o cliente que paga em dia.

Essa promiscuidade estratégica revela mais do que uma crise de caráter individual. Expõe uma engrenagem viciada, em que a política deixa de ser campo de disputa de projetos para se tornar um balcão de negócios narrativos. Vende-se esperança como quem vende sabonete e troca-se de lado com a mesma naturalidade de quem muda o slogan de uma campanha.

Para esse grupo, pouco importa quem vence nas urnas, porque, sendo artífices da persuasão, a verdadeira vitória está garantida no contrato assinado, na conta abastecida e na agenda cheia. Se o candidato naufraga, muda-se o cliente. Se vence, celebra-se como estrategista genial.

Para espanto de quem observa os bastidores, Brasília virou cabide onde alguns rezam por votos, enquanto outros mais pragmáticos rezam pelo próximo briefing. Tudo porque, no altar do marketing político, a fé pode até ser discursiva, desde que o dízimo seja sempre real.

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