Política é a arte do possível. A célebre frase é do também célebre Ulysses Guimarães, aquele que morreu sem nunca ter morrido. Fã de carteirinha do Sr. Diretas Já, resolvi acrescentar à expressão um adendo que sempre achei interessante e, acredito, criado exclusivamente para a categoria. Em política, o que não é possível é falso. Verdade absoluta e que independe de ideologia e de extremos. Se alguém tiver algo contra a afirmação, que fale agora ou cale-se para sempre, pois o movimento não é de direita e nem de esquerda. O movimento é sexy.
Antiga e cada vez mais atual, a tese do filósofo alemão Friedrich Nietzsche é autoexplicativa: “Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos”. Por analogia metafórica, seguiria o exemplo entre cabeça e corpo e capitão e soldados. Cabeça (cérebro) e capitão são duas entidades análogas. As duas são parecidas, mas com fundamentos divergentes, principalmente quando se busca o princípio da igualdade.
Na minha análise, há semelhança entre capitão e soldados, aos quais, nos últimos seis ou sete anos, faltou cérebro. Deixa pra lá. Bolsonaro é carta fora do baralho. Jogou e perdeu os paus, as copas, os ouros, as espadas e, em futuro bem próximo, a liberdade. Como nem a trinca tem mais, partiu para a casa do chapéu (melhor assim). De volta aos políticos, recorro a outro filósofo (Aristóteles) para afirmar que, por natureza, o homem é um animal político. E dos mais vorazes. Lembrando que a política não é corrupta – os políticos são -, eu até faria uma piada sobre os polidos, amáveis e elegantes cidadãos, mas eles já roubaram a graça.
Não faz mal. Embora tenha me apossado da ideia, faço a piada mesmo assim: Se onde há fumaça há fogo, então o Congresso Nacional já virou o próprio inferno. Para sorte dos bons parlamentares e do povo que ainda espera pela ressurreição nacional, o fogo diminuiu com os 27 anos de clausura impostos pelo STF ao capitão. Que Deus o mantenha cada vez mais longe de nós e, se possível, bem próximo do diabão Donald Trump. Como os dois se merecem, que fiquem juntos pela eternidade.
Como veem, é difícil lembrar ou falar de política ou de políticos sem referências ao mito Jair de Curicica. Registre-se que não há nada de errado com aqueles que não gostam de políticos despreparados, soberbos e fanatizados. O problema é que eles serão eleitos por aqueles que gostam. Vivemos isso em 2018 na eleição presidencial e experimentamos novamente em 2022, com a eleição de uma ruma de deputados e senadores de capacidade política duvidosa. Quem os conhecia, deixou de comprá-los.
Como nem tudo é perfeito na Terra Brasilis, o resumo da ópera é que o castigo dos bons que fogem da politicagem é serem governados pelos maus. Circulando rapidamente pelo novo cenário parlamentar e fuçando as biografias dos deputados da PEC da Malandragem e dos senadores da anistia, fica claro que, embora às escuras e com plateia reduzida, o palco bolsonarista continua armado. O problema é que o script é o mesmo. Mesmo que ponham uma nova roupagem em quem tentar substituir o protagonista da trama golpista, o folhetim permanecerá pregado na vilania.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais
