Há um cheiro estranho no ar quando instituições começam a exigir aplauso no lugar de perguntas. Não é cheiro de pólvora nem de enxofre. É mais sutil. Lembra talco velho, desses que ficaram tempo demais no armário. A gente acha aparentemente inofensivo, mas já fora do prazo de validade. É assim que as democracias começam a envelhecer mal.
Assumi, nestes dias, as rédeas de uma cobertura espinhosa enquanto Marta Nobre, nossa Editora Executiva, desfruta merecido recesso. Não é sacrifício, é ofício. E ofício, aprendi cedo, não se terceiriza à conveniência. Não escrevo movido por ingenuidade ou fervor tardio. São 55 anos de jornalismo nas costas, boa parte deles aprendidos na marra, quando Brasília ainda cheirava a concreto fresco e a Folha de S.Paulo mantinha na capital uma sucursal que funcionava como escola de método e desconfiança saudável.
Ali se aprendia cedo que versão oficial não é verdade, mas ponto de partida. Que processo não é detalhe burocrático, é a própria espinha dorsal da democracia. E que jornalista que escolhe lado antes de entender o rito não informa, apenas milita. O caso da liquidação do Banco Master pelo Banco Central, portanto, não é sobre gostar ou não de banqueiros. É sobre algo bem menos fotogênico: processo. Aquela palavra que só ganha manchete quando falta.
O Tribunal de Contas da União ousou fazer o que a Constituição manda, que é investigar se uma liquidação de R$ 50 bilhões — a maior da história, um terço inteiro do FGC — seguiu os trâmites corretos. A reação? Parte da imprensa decidiu que fiscalizar virou sinônimo de proteger bandido. Não é erro técnico. É pedagogia perversa. Ensina-se ao leitor que controle institucional é suspeito quando aponta o dedo para decisões do Estado.
Notibras, que dirijo há quase 27 anos ao lado de nomes que fizeram a história do jornalismo na capital da República, não está absolvendo o Banco Master. Nem santificando Vorcaro. Isso é caricatura para consumo rápido. O que se aponta é uma contradição tão gritante que dói nos olhos: o Banco Central teve meses para avaliar alternativas. Em setembro, vetou uma proposta alegando “riscos excessivos”. Logo depois, em novembro, diante de nova proposta, levou menos de 24 horas para decidir pela liquidação total. Foi lento demais quando havia tempo, rápido demais quando decidiu que não havia. Fraude, todos sabemos, não explica cronologia incoerente. Simplesmente Expõe.
Se havia urgência em novembro, onde ela dormia em setembro? Se não havia em setembro, de onde brotou de repente, como cogumelo depois da chuva? O que se pede não é indulgência. É coerência. E coerência, curiosamente, virou artigo de luxo.
O argumento que circula com ares de sabedoria técnica é ainda mais saboroso. Argumenta-se que “se reverter a liquidação, não se descobre o que aconteceu no banco”. Traduzindo sem o jargão: manter uma decisão possivelmente irregular é necessário para investigar irregularidades. Questionar o Estado atrapalha a investigação do banco. É o tipo de lógica que faria corar até sofista grego em fim de carreira. O Estado torna-se isento de fiscalização exatamente quando exerce seu poder máximo. E quem ousa perguntar vira cúmplice moral do crime.
Há também o detalhe que parte da mídia prefere empurrar para baixo do tapete persa da narrativa oficial. Vale lembrar que o modelo de negócios do Banco Master, hoje tratado como “obviamente fraudulento”, foi regulado, fiscalizado e permitido pelo próprio Banco Central durante anos. Só em agosto de 2024 o Conselho Monetário Nacional aprovou regras mais duras. Ontem era permitido. Hoje sempre foi óbvio que era fraude. Isso não é jornalismo. É reescrita retroativa da história para salvar decisões presentes. Quando se faz isso, apagam-se as pegadas que revelariam a incoerência do poder.
Fala-se muito em intenção política. Em Brasília, intenção política é tão rara quanto chuva no Amazonas. Consequentemente, irrelevante. O que importa é o processo. Se o rito é correto, pouco importa quem sorriu no bastidor. Quando se troca a análise do que foi feito pela especulação sobre o que se pretendeu, abandona-se o jornalismo e entra-se na torcida organizada, com camisa, batuque e palavrão.
Quarenta e um bilhões. Um terço do FGC. Questionar se havia alternativas menos destrutivas virou “protecionismo”. É como se um cirurgião, diante de gangrena no dedo, amputasse o braço inteiro e, ao ser questionado, reagisse indignado: “O senhor está defendendo a gangrena?”. Não, responderia p paciente retalhado. “Estou perguntando se o corte foi maior que o necessário”. Ou seja, crime não transforma automaticamente qualquer resposta estatal em resposta ótima.
Mesmo que Vorcaro seja culpado de tudo. Mesmo que a liquidação fosse inevitável. Mesmo que o TCU esteja movido por política. Atacar a fiscalização institucional é mais perigoso do que qualquer fraude individual. Fraudes se punem. Precedentes autoritários, não. Eles ficam. Criam raízes. Viram método.
O caso Master será esquecido. Os nomes mudarão. Mas o precedente permanece: o de que órgãos de controle não devem questionar o Estado quando ele pune alvos impopulares. Um presente embrulhado para futuros governos que queiram pular etapas em nome de urgências mal explicadas. Quando historiadores perguntarem como o Brasil começou a tratar fiscalização como incômodo, talvez apontem para momentos como este. Quando perguntar virou crime moral. Quando processo virou detalhe. Quando a imprensa, que deveria ser a guardiã obsessiva do rito, preferiu latir ao lado do poder.
A função da mídia não é garantir que gente ruim seja punida. É garantir que todos sejam punidos justamente. Quando os coleguinhas esquecem isso, não falham apenas. Ajudam, em silêncio perfumado de talco, a cavar a cova da república.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
