Brasília começa a sussurrar o que, até pouco tempo, só se ouvia aos gritos. Nos corredores acarpetados do Poder, longe dos holofotes e das trincheiras digitais, amadurece uma mudança de tom que pode redesenhar o tabuleiro da eleição presidencial de 2026. Depois de anos marcados por uma polarização quase litúrgica, lideranças da direita que têm no senador Flávio Bolsonaro (PL), um de seus principais expoentes, começam a admitir que vencer exigirá mais do que fidelidade da tropa. Acima de tudo, avaliam, será preciso conquistar quem nunca vestiu a camisa.
A leitura, compartilhada em conversas reservadas e cafés discretos, é pragmática. A eleição não será decidida apenas no calor das redes ou na força das convicções já consolidadas. Para avançar a um patamar tranquilizador, será necessário usar a capacidade de furar bolhas, reduzir resistências e falar com quem ainda observa de fora. Se fosse um desenho, a imagem sugeriria transformar militância em maioria, e maioria em voto.
Ao contrário do que se possa imaginar, não se trata de uma guinada ideológica, mas de um ajuste de rota. A espinha dorsal deve permanecer intacta, com manifestação de liberdade econômica, segurança jurídica e protagonismo institucional. O que muda, no caso, é a embalagem, o ritmo e a cadência do discurso, com menos confronto estéril e mais construção de pontes. Algo como abafar ruídos e espalhar mais mensagens.
Nos bastidores, a convicção é quase unânime, indicando que 2026 será menos uma guerra de narrativas e mais uma disputa por credibilidade. Sairá vencedor quem apresentar respostas e não apenas reações. E as perguntas que o eleitor tem feito abordam geração de emprego, renda, dívida das famílias e serviços públicos. Porque o povo – e as pesquisas apontam nesse caminho -, não deseja continuar refém de slogans ou ou de promessas eleitoreiras.
Entre os interlocutores desse movimento surge a voz do publicitário Marcello Lopes, um amigo de longa data com quem costumo sentar-me à mesa para um café em sua agência, a CLX. Ultimamente Marcellão tem me revelado a participação em reuniões estratégicas, onde preconiza uma reconfiguração no modo de comunicar. Para ele, o tempo da estridência está ficando para trás.
“A eleição não será vencida no grito, mas na construção de maioria. Quem conseguir dialogar sem abrir mão dos seus princípios terá vantagem real”, observa. Marcellão reconhece o ativo político acumulado nos últimos anos, que ele define como uma base mobilizada, fiel e combativa, embora alerte para o risco de isolamento.
“Existe um patrimônio político importante que não pode ser desperdiçado. A base é a força, mas para vencer é preciso somar”, sentencia, numa referência explícita ao bolsonarismo.
De minha parte, entendo que essa lógica já começa a contaminar o debate público, com temas mais concretos ganhando espaço sobre disputas simbólicas. Tanto é, que crescimento econômico, geração de empregos, combate ao endividamento e melhoria dos serviços essenciais passam a ocupar o centro da narrativa, ganhando espaço com a força de assuntos que dialogam com o cotidiano do eleitor comum, justamente aquele que decide eleições longe dos extremos.
Nos círculos políticos de Brasília, sente-se no ar a sensação de que algo está mudando com consistência, e não mais de forma ruidosa. É como uma inflexão silenciosa que pode reposicionar a direita no espectro eleitoral e, mais do que isso, redefinir os termos da disputa.
Se esse movimento se consolidar – respeitado o pensamento de Marcello Lopes -, seus efeitos devem ultrapassar a corrida presidencial. A tendência, portanto, é que alianças sejam revistas, candidaturas recalibradas e estratégias redesenhadas. E no mapa político do outubro que se avizinha, o que sair das urnas pode não estar pintado com as mesmas cores berrantes dos últimos pleitos, mas com tons mais sóbrios, e, consequentemente, mais decisivos.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
