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Momentos de ócio fazem valer somente o hoje

Em uma dessas noites de insônia intempestiva, sem ter para onde ir, esperei a madrugada agonizar para tentar amenizar a agonia que ameaçava chegar. Proibido de pisar na Boate Azul e de tilintar na Casa da Luz Vermelha, me restou a saudade da época em que acordava mais cedo para ficar mais tempo à toa. Não tenho queixas da vida, do físico, da libido das mulatas do Lalau, muito menos das rixas diárias entre as assanhadas vizinhas do afamado cabaré da Tia Lola e os irmãos da difamada Igreja Presbicheriana, conduzida com mão de ferro pelo pastor Adulando Doimenos. No meu canto, sonho sonhos cada vez mais altos.

Normalmente acordo cantarolando Alô Alô Realengo, lavo os cabelos com xampu, resfolego sussurrando que meu lugar é bem perto de Oswaldo Cruz, Cascadura, Vaz Lobo e Irajá e me espreguiço sorrindo e gritando que, depois de Campo Grande, sou Madureira, la-la-iá. Com sobriedade, sabedoria e experiência, mesmo sem lenço e sem documento, sempre cheguei cheio de brilhantina e de gás aos embalos de sábado à noite. No domingo de manhã, percebia que tudo esteve intimamente ligado ao alto consumo de bebidas gasosas, entre elas o Cuba Libre, uma bebida clássica dos ânus dourados, à base de rum (geralmente branco) com a Coca-Cola pré-pandemia e anterior a Donald Trump.

Como não fechei as portas da vida, tampouco as janelas do amor, madrugada ardendo, as nuvens caminhando e eu enfumaçando de tanta vontade de treinar tiro no Álvaro, no Anchieta, na Marieta, na Antonieta, na canaleta e em tudo que tenha o mesmo sufixo. E a Boite Azul formigando em minha cabeça. Para variar o pensamento, me ocupo de lembranças da infância perdida e bem vivida. Saudades do telefone fixo, dos cadernos de receitas escritos à mão e dos aniversários sem lembretes e regados com macarronada e maionese. Saudades dos tempos das serenatas e das moças debruçadas nas janelas.

Lá se vão longe os bailes nos clubes das esquinas do bairro, a melodia dos ventos e o namoro no portão de casa. Atualmente, o povo entra sem bater e nem precisa abrir a tramela. Entre janeiro e dezembro, eu sabia me virar. Bastava um rolo de fita isolante, uma fenda razoável no jenipapo ao ponto, dez mililitros de vaselina pura e estava feita a jenipapança. Em harmonia constante com a natureza, lá ia eu para uma viagem sem volta. Era só correr pra galera. Folheava uma lista telefônica com paciência hercúlea. Rebobinava uma fita cassete com lápis de ponta em questão de segundos. Não sei se me entendem, mas sabem quanto tempo eu levava para descascar uma banana ou descabelar o palhaço?

Nada mais do que o tempo necessário para o estalo do prazer. Às vezes, uma hora e meia. E o tempo passou. A jenipapança acabou e o “morto” aflorou. Mudando de assunto, bom voto em 2026 para todos que vivem de domingo a domingo, com folgas somente nos feriados santos. Como veem, eu também já fui jovem. Acho que me faltou entender o momento de começar e a hora de parar. Além do jenipapo, também meti o pé na jaca. Ai que vontade de um cateretê, da Gafieira Elite, da Estudantina, da Rua Alice e da Pinto de Azevedo. Vivi e não me arrependi. Aliás, repetindo o sábio Millôr Fernandes, viver é desenhar sem borracha.

Dia quase amanhecendo. Obrigado pelas conjuminâncias da vida, notadamente pela deficiência do ferro, me rendi à distância da Boate Azul e me convenci de que hoje, paralelamente às palpitações cardíacas, à confusão mental, ao enfraquecimento das unhas e à queda de cabelo, estou cada vez mais próximo da disfunção erétil, vulgarmente conhecida por paumolescência. Por isso, antes que eu morra e não consiga espantar as incômodas moscas, me permito esquecer dois dias do ano: o ontem e o amanhã. Hora de levantar.  Considerando que o passado é o futuro usado, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e, principalmente, viver. Que pelo menos ninguém ouse me procurar somente em busca de prazer. Oremos!

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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