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Momo antecipa festa e foliões ocupam Recife

O calendário até pode marcar que o Carnaval começa oficialmente em determinados dias, mas no Nordeste a festa tem pressa de alegria. Ela se antecipa, atravessa semanas, toma as ruas antes mesmo que o resto do país perceba que o ano engrenou. Quando os primeiros metais sopram e os tambores respondem, já não há relógio que segure.

No Recife, o coração pulsa no Marco Zero. Milhões de foliões se espalham pelas redondezas como um mar colorido, onde cada fantasia é um pequeno manifesto de felicidade e pertencimento. Os blocos tradicionais desfilam trazendo consigo décadas – às vezes séculos – de memória. Frevo rasga o ar, sombrinhas giram como hélices de um tempo que nunca pousa, e a multidão aprende de novo que dançar também é uma forma de resistência cultural.

Há algo de profundamente democrático nesse encontro. O turista recém-chegado tropeça no passo acelerado do passista veterano; famílias inteiras dividem espaço com grupos de amigos que transformam qualquer esquina em camarote improvisado. A cidade deixa de ser trânsito e vira trajeto afetivo. Cada rua leva a uma lembrança, a um refrão conhecido, a um abraço inesperado.

Em Olinda, a festa ganha outra geografia. As ladeiras da Sé testam fôlego, panturrilha e determinação. Subir é quase um rito iniciático: quem encara o percurso recebe, no alto, a recompensa de um horizonte aberto e de bonecos gigantes que parecem vigiar, generosos, o vai e vem da multidão. Ali, o Carnaval é vertical; exige esforço, mas devolve encanto.

E então, no horizonte próximo, surge ele: o Galo da Madrugada. Mais que um bloco, um símbolo. Quando o Galo canta, o país inteiro escuta. É a confirmação de que a folia atingiu seu ápice, de que Recife se converteu definitivamente na capital da alegria compartilhada. Não importa quantas vezes se tenha vivido essa experiência – há sempre a sensação de estreia.

O Nordeste ensina, ano após ano, que o Carnaval não é apenas festa. É herança, identidade, economia pulsando, arte viva e memória coletiva em movimento. Começa antes, termina depois e permanece em quem participou, como um eco de metais que insiste em tocar mesmo quando o silêncio volta.

Porque, por ali, a quarta-feira de cinzas nunca consegue apagar completamente o brilho que ficou nas ruas.

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