Entre a cruz da Casa Branca, o caldeirão do Capitólio, icônico prédio que abriga o Congresso Nacional, e a tirolesa ligando o Pentágono ao Cemitério Nacional de Arlington, nos arredores de Washington D.C, o presidente Donald Trump está por três cadeiras na Câmara de Representação norte-americana. É perdê-las nas eleições de novembro próximo e bye bye poder. Para quem um dia achou que o mundo fora feito para si, Trump e suas loucuras de comandante em chefe de um exército disciplinado e pronto para virar a terra do avesso está cada vez mais parecido com o Dr. Strangelove.
Personagem do filme Dr. Fantástico, estrelado por Peter Sellers, Strangelove é cuspido e escarrado o líder republicano dos Estados Unidos de Elon Musk e de Eduardo Bolsonaro. Ou seria um sósia de Bolsonaro? Com as divisas emprestadas do capitão Jair Messias e agora fantasiado de Prêmio Nobel, Trump, que se imagina um general com a insanidade de um empinador de papagaio sem rabiola, acredita que os comunistas desencarnados na União Soviética reencarnaram no Brasil, na Colômbia e no Paraguai. Daí a necessidade dos exercícios militares em terras paraguaias e a prisão de Nicolás Maduro, o grande marechal dos comunas.
Na comédia britânica de 1964, Dr. Strangelove satirizava os temores dos norte-americanos com a Guerra Fria. Travestido de presidente dos Estados Unidos, o personagem de Peter Sellers, o tal general insano, acompanhado de seu conselheiro científico Strangelove, também interpretado por Sellers, inicia um ataque nuclear aos soviéticos. Após uma ruma de cenas hilárias, o major T.J. “King” Kong monta em uma bomba e, como se estivesse em um rodeio, acena com o chapéu de cowboy enquanto o artefato explosivo cai em direção ao alvo.
Qualquer semelhança com o frustrado golpe do capitão Bolsonaro contra o cabo Luiz Inácio e com a recente invasão do bunker de Maduro não são meras coincidências. A insanidade é a mesma. Tudo a ver com quem só pensa naquilo. O ápice do filme ridicularizando a Guerra Fria é a canção romântica We’ll meet again (“Nós nos encontraremos de novo”). A letra e a melodia reforçam a ironia da película. Afinal, onde é que alguém encontrará alguém depois de um apocalipse nuclear? Só na cabeça do autor, o inglês Stanley Kubrick.
Embora com nuances parecidas, a diferença do enredo de Kubrick para o cenário político de hoje é o lado patético dos envolvidos. Exceto os covardes que fugiram, o pessoal do golpe contra a democracia brasileira voltou a se encontrar no xilindró. Quanto a Donald Trump, sua hora vai chegar. Aliás, considerando as reações dos conterrâneos e do restante do mundo, já chegou. Conforme diria o astuto e estrogonófico Barão de Itararé, Bolsonaro e Trump lembram um tambor desafinado: fazem muito barulho, mas são vazios por dentro. Pela segunda vez, a bomba bolsonarista estourou no colo dos insanos.
Próximo de ativar os explosivos do juízo final, o eleitorado dos EUA, onde ninguém é puro anjo ou demônio, dará ao líder republicano a resposta que algumas lideranças internacionais já deram: De onde menos se espera é que não sai nada mesmo. Trump precisa seguir a máxima de que quem tem resultado não faz barulho e fazer urgentemente o que Bolsonaro não conseguiu em quatro anos: falar menos e governar mais. As três cadeiras que faltam para os democratas na Câmara de Representação poderão resultar no seu impeachment. Nesse caso, Donald Trump deverá reencontrar Nicolás Maduro em uma esquina qualquer da Times Square. Sob o olhar atento do Dr. Strangelove, será o local ideal para que, olhando nos olhos, um diga para o outro: Em você, achei a verdadeira razão para viver.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras
