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Na contramão dos fatos, Câmara usa PL Antifacção para enxugar gelo

Plenário da Câmara dos Deputados

Em se tratando da oposição no Congresso Nacional, o mínimo que se pode dizer é que tudo de ruim que a bancada bolsonarista põe a mão tende a ficar muito pior. É o caso do PL Antifacção, cuja relatoria caiu interessantemente no colo do deputado Guilherme Derrite (Progressista), secretário de Segurança do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Não fossem os gritos dos representantes do governo federal, a ideia inicial de entregar o Brasil à bandidagem organizada certamente seria facilmente alcançada.

O primeiro passo – de enfraquecer a Polícia Federal no combate ao crime organizado – foi escandalosamente lançado logo na abertura dos trabalhos do colegiado da Câmara. Tudo indicava que o projeto não chegaria a lugar algum, a exemplo de dezenas de outros similares. Desde a indicação do Capitão Derrite, a proposta parece peru na véspera de Natal. Rodou, rodou e não saiu do lugar. Já foram quatro relatórios e nenhum agradou a ninguém.

Portanto, até prova em contrário, a intenção era jogar para a plateia, algo como enxugar o gelo até que ele derretesse por inteiro. Mesmo os mais leigos sabem que governo algum combate o crime de baixo para cima. Além de leis mais rígidas e de autoridades que as façam cumprir, se não houver cortes na própria carne, o resultado ficará aquém de zero menos zero. Qualquer menino de quinta série tem conhecimento acerca do cerco da bandidagem aos legislativos brasileiros, notadamente ao Congresso Nacional.

Infelizmente, a atual política brasileira está infestada de deputados, senadores e vereadores de reputação duvidosa. Sem generalizar, boa parte dos parlamentares de hoje ou é financiada pelo crime organizado ou dele faz parte. Eis a razão pela qual os políticos de hoje atuam explicitamente na contramão dos fatos, isto é, se limitam a enquadrar os bagrinhos, mas fazem tudo para proteger os tubarões. Deliberadamente, suas excelências inverteram a pirâmide do mal.

A operação Carbono Oculto e a recém-arquivada PEC da Blindagem não me deixam mentir. A ordem era blindar os financiadores de campanhas, incluindo nessa lista traficantes, milicianos e empresários a eles vinculados. Enquanto nossos oportunistas e desorganizados homens públicos teimam em enxugar gelo e engarrafar fumaça, os criminosos se organizam cada vez nas comunidades abandonadas pelo Estado.

No Rio de Janeiro, palco recente de uma chacina sem precedentes, o sistema eleitoral envolve pessoas sabidamente comprometidas com o crime organizado, mas exclui cidadãos que, pelo menos aparentemente, têm alguma preocupação com o país e com a população brasileira. Por enquanto, os deputados menos empenhados na proteção de quem não presta conseguiram conter a fúria da raposa no galinheiro. Como dispõe de fé, resiliência e voto, a sociedade que se orgulha da nação torce para que os bolsonaristas esqueçam o show e se convençam definitivamente de que os parlamentares são pagos para trabalhar paras o povo e não para a bandidagem.

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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras

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