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Ninho deve abrigar uma nova e competitiva chapa

O vento costuma soprar mais forte nos corredores do poder do que nas avenidas largas do Plano Piloto; e neste início de abril, a brisa suave começa a dar forma a um novo ninho. Não é desses feitos às pressas, com gravetos ideológicos arrancados de discursos inflamados. Trata-se, ao contrário, de uma construção paciente, quase artesanal, pensada para abrigar aves de plumagens distintas, mas que tem, como algo em comum, o cansaço dos extremos.

Nesse ninho em gestação, não há espaço para penas eriçadas nem para cantos estridentes. As cores são deliberadamente neutras, como quem tenta escapar da polarização que, nos últimos anos, transformou o debate público em um duelo de trincheiras. O que se busca é uma convivência possível entre correntes que já entenderam que o eleitor de 2026 talvez não queira mais escolher entre o grito e o eco, mas entre o equilíbrio e o resultado.

É uma aposta arriscada, como todo voo inaugural. Afinal, juntar diferentes espécies no mesmo galho exige mais do que discurso conciliador; é preciso instinto de sobrevivência política. Cada integrante desse ninho sabe que, sozinho, pode até cantar alto, mas dificilmente alcançará as correntes de ar que levam ao Palácio do Buriti. Juntos, porém, podem planar.

O projeto ainda é embrionário, mas já provoca desconforto nas aves de rapina acostumadas a dominar o céu. À direita, desconfia-se de uma possível diluição de bandeiras. À esquerda, teme-se a perda do protagonismo retórico. Ambos observam com cautela e certa apreensão o crescimento silencioso desse ajuntamento que prefere o voo em formação, ao ataque isolado.

No fundo, o que está em jogo não é apenas uma eleição. É uma tentativa de redesenhar o mapa emocional do eleitor brasiliense, hoje saturado de promessas que mais dividem do que entregam. O ninho neutro surge, portanto, como uma resposta pragmática, com menos paixão ideológica e mais cálculo político.

Se dará certo? Em Brasília, até os pássaros sabem que o céu muda rápido. Tempestades surgem sem aviso, alianças se desfazem ao primeiro trovão e antigos companheiros de voo podem disputar o mesmo espaço de ar em questão de dias. Mas, se o ninho resistir às primeiras rajadas, se os seus ocupantes conseguirem evitar que diferenças naturais se transformem em disputas internas, há uma possibilidade concreta de que esse experimento saia do campo da metáfora para o da vitória.

Depois é esperar para um brinde de acordo com a lei do Direito, alicerçada com estacas de uma grande construtora. Não será, como comenta-se ao pé do ouvido, com o erguer de taças apenas pela celebração do poder conquistado, mas pelo raro feito de provar que, em tempos de extremos barulhentos, ainda há espaço para quem escolhe construir, no próprio silêncio, o caminho do meio. Quem observa o cenário político, aposta que esse ninho não será apenas um abrigo temporal, muito menos uma miragem.

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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras

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