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No Brasil, a língua portuguesa tem mil e uma utilidades

Muito pior do que não conhecer a língua dos outros é não saber como usar corretamente a sua. Se alguém pensou alguma daquelas baboseiras gostosas feitas com ou a partir da língua, peça desculpas ao nosso bom Deus e cumpra já as penitências devidas por aqueles que só pensam naquilo. O que quero dizer – pelo menos foi o que imaginei dizer – tem a ver com as idiossincrasias, os conceitos, as pegadinhas e, principalmente, a facilidade como o povo brasileiro se utiliza da língua portuguesa ou a transforma em um abecedário do tipo besteirol sério ou destrambelhado.

Nada a ver com as metáforas, mas tudo a ver com a forma como cada um entende a seu modo o que se ouve ou o que se lê. Por exemplo, o que significa casar com a gema e nunca quebrar os ovos? Sei lá! Casei com uma de Virgem, a desposei como um bom nascido sob os auspícios de Escorpião, comi as castanhas e, graças ao caboclo que me pega por trás, até hoje mantenho a dentadura. Por favor, não entendam como a ditadura. Isso aí faz tempo é coisa de um passado que já passou. Viram como, às vezes, a redundância na linguagem nos ajuda a enfatizar eventuais desesperos.

É o mesmo que, poeticamente, dizer a cegueira da visão ou a força bruta do homem de ferro. É a licença poética assegurando inteligência a quem não a tem. Detalhes tão pequenos para um país no qual basta ter opinião para ser polêmico. Aliás, no Brasil só é livre quem é irrelevante. Eu sou. Por isso, não me incomodo quando dizem que nem sei quem sou. E daí. Sou do mesmo Brasil onde há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinhos. Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas. Pior são aquelas que falam muito e mentem sempre porque acabam esgotando seu estoque de verdades.

Embora não seja um craque no idioma, busco sempre fazer bom uso da língua. Normalmente faço isso quando o galo canta, a patroa se encanta e o crepúsculo não levanta. Voltando às mazelas do português falado, radiofonizado e televisado, procuro diariamente explicar aos preconceituosos que homossexual é, com todo direito, homossexual e não bicha. Termo horroroso, nojento e impróprio, pois bicha é o que sai do furico e não o que entra. Difícil são os aumentativos e os sinônimos estrangeirados. Como informar a um desaportuguesado que bobalhão ou otário em hindu não é buda mole? Complicado. Mais complicado é jurar para o interlocutor que um buda grande nada tem a ver com bundão.

Apesar de estudado, com mestrado nas esquinas dos subúrbios do Rio e doutorado nas tesourinhas de Brasília, levei anos para descobrir que decimal é somente o número não inteiro, expresso por vírgula indicando que o algarismo a seguir pertence à ordem das décimas. Até então, decimal era o efeito da degustação dos bolinhos de minha avó paterna. Ainda hoje, às vésperas de mais uma eleição presidencial, época em que o brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos quatro anos, não é incomum ouvirmos o matuto anunciar para os amigos do lugarejo em que vive que comprou um fogão a pilha. Basta visitá-lo para descobrir que a pilha é de lenha.

Apelidadas de neologismos, as palavras recém-criadas ou aquelas que assumem significados diferentes das já existentes são a prova de que, assim como o Bombril, a língua tem mil e uma utilidades. A nossa não é nenhuma Brastemp, mas é a número 1. A gente a conhece e nela confia. E assim vamos tocando em frente, porque atrás vem gente. Qual o problema do cidadão comum achar que as doenças sazonais são males da zona ou adquiridas na zona? Nenhum. Se alguém tiver alguma dúvida, basta perguntar no Posto Ipiranga. Universal somente a forma como todos entendem a politicagem no Brasil. Por aqui, na disputa de quem rouba mais, os que dizem que lutam contra a corrupção estão na frente.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

 

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