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No Brasil das fakes news, ganha a eleição o mentiroso mais antenado

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Entre as mudanças que o cérebro eletrônico introduziu nos seres humanos, a pior delas, sem dúvida, é a inteligência artificial, que pode transformar um burro em jumento, um homem em mulher e até políticos corruptos em cidadãos acima de qualquer suspeita. Chamada de evolução, uma outra diferença bastante nociva foi afastar de vez os candidatos a larápios e enganadores dos eleitores. Faz alguns anos que as indicações de amigos e vizinhos, comícios, santinhos, apertos de mão e abraços com relativa distância deixaram de fazer parte das campanhas eleitorais. O corpo a corpo, as carreatas e as caminhadas pelos calçadões também estão a dois passos do precipício.

O homem sapiens perdeu o valor. O cidadão comum, aquele que vive desplugado, é jurássico. Agora é a máquina, as alexias, o artificialismo e os robôs quem dão as cartas. Ideias, propostas e valores éticos entraram definitivamente na lista das coisas de somenos importância. Não adianta mais os esperneios e as pregações de moralidade dos candidatos honestos. Esses tipos não interessam mais à maioria do eleitorado mundial, notadamente brasileiros, argentinos e norte-americanos. Para esses, relevante é o que ouvem e leem nas redes sociais e as mentiras que acessam no Twitter, Instagram e Facebook, redes atualmente apelidadas de difusoras de fake news.

Mesmo dispondo de um dos mais avançados sistemas eleitorais do planeta, o povo brasileiro e os postulantes a cargos eletivos decidiram fulanizar de tal modo o pleito que, mesmo com alguma consciência, a maioria dos eleitores já não consegue diferenciar o sujeito do verbo, muito menos o ponto da vírgula. Pontas de lança das campanhas do século 21, os memes em profusão despertam e atingem em cheio os jovens antenados, mas desinteressados. E eles (os memes) vieram para ficar e serão realidade nas próximas eleições nacionais. Em verdade, já foram em 2018 e 2022. Fáceis, rápidas e abrangentes, as redes sociais, no entanto, são um risco para um lado e para o outro.

O ideal é que os eleitores também tivessem acesso ao entendimento sobre o que é relato, o que é real e o que é fake. Do ponto de vista da interconexão nas instituições sociais, esses meios de comunicação seguem a máxima de tudo aquilo que é exagerado. Facilitador de contatos, independentemente da distância física, eles também podem acarretar consequências negativas caso sejam usados de forma descontrolada e abusiva. Não esqueçamos das fakes news, cujo mal maior está em quem as propaga. Ainda que os “patriotas” neguem à exaustão, foi o que eles fizeram sem comiseração na vitória de 2018 e na derrota de 2018.

A patriotada achou que os seguidores do ódio jamais deixariam de fazer a cabeça dos incautos com as mentiras tecnológicas. Perderam feio. Ou seja, numa peleja em busca do maior testículo, nem sempre o touro perde. Como não há controle ou cuidado ético deliberados com o que é veiculado ou com o que as pessoas dizem, chegará o dia em que alguém batizará as futuras campanhas de guerrilha urbana informal. Infelizmente, nossas autoridades perderam o timing das explicações lógicas. Por exemplo, os debates eletrônicos não são mais diferenciais, muito menos fundamentais para decidir uma eleição.

O problema é que os operadores fantasmas e mal-intencionados das redes sociais normalmente são pessoas sem conteúdo político ou compromisso com a democracia. Por isso, ganham muito para ajudar a eleger cidadãos e cidadãs também descompromissadas com a razão, com as leis e, principalmente, com o povo. Crime moral e covarde, as fakes são um flagelo social. Capazes de levar cidadãos de bem à morte e gerar aleijões irrecuperáveis em inocentes, as notícias falsas funcionam como armas para os ignorantes. A menos que o atual presidente consiga zerar a dívida dos “patriotas” com o povão, o mal maior ainda está por vir. O Brasil tem tentado, mas é difícil digerir a quantidade de excelências eleitas em 2022 na esteira dos horrores das fakes.

Quase sem exceção, elas alcançaram cargos públicos legislando em nome próprio ou em nome do crime organizado. Preso recentemente na Bahia, o deputado estadual Binho Galinha comandava uma rede de milicianos que operavam com jogo do bicho, agiotagem e roubo de automóveis de luxo e de caminhões de carga. A Polícia Federal ciscou no endereço do parlamentar e bloqueou mais de R$ 200 milhões das contas bancárias dos investigados, sequestrou propriedades urbanas e rurais e suspendeu as atividades econômicas de seis empresas ligadas ao grupo. Como se vê, caiu o boato e subiu o fato. Esta semana, um deputado usou uma caminhada fajuta para defender o indefensável. Alguém tinha de informá-lo que esse tipo de defesa “não kola”. Enfim, assim como as oportunidades, as fakes fazem o ladrão e encorajam o enganador.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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