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No Natal do amor e da solidariedade é a hipocrisia que está no ar

Hoje é Natal, data em que comemoramos o nascimento do Homem que se sacrificou para que pudéssemos modificar nossa maneira de ver o mundo. O dia é ideal para que não pensemos em nada ruim, em nada que possamos nos arrepender, em nada que nos faça se desenganar das pessoas. Deveria ser, mas não tem sido assim. Em lugar do amor, da paz, da solidariedade e da doação, é a hipocrisia que está no ar. É a arte de exigir dos outros aquilo que não se pratica, dividindo espaço com o ódio e a soberba.

Gostaria de desejar aos brasileiros um país melhor, no qual todos pudessem estabelecer um novo vigor de humanidade. Que bom se sonhássemos juntos e que nada fosse mais forte do que a união. Difícil porque o Brasil permanece apinhado daqueles que, fingindo ter um Deus na boca, se embriagam na hipocrisia e não escondem que têm um demônio no coração. Fantasiados de patriotas e de falsos profetas, esses são muitos e incapazes de calçar as sandálias da humildade. Pelo contrário, boicotam as Havaianas somente por conta de um simples e simbólico comercial da marca.

São os mesmos que não se preocupam com a dor ou com a fome alheia. Eles não são coveiros. Hoje, infelizmente, muitos de nós vivem no modo condicional. Como seria diferente se, em vez da troca de presentes, avaliássemos a magia do Natal como troca de afeto, de amor e em instantes muitas vezes raros de união familiar. Com pressa de termos e não de sermos, andamos esquecidos de que, juntos, somos mais fortes. E se transformássemos pequenos gestos em grandes impactos? E se percebêssemos que plantar solidariedade ainda é a melhor forma de colher bons frutos? E se? E se?

Como o modo condicional depende de uma condição, requisito ou circunstância para se realizar, é óbvio que, se chover, o chão ficará molhado. Aproveitemos o dia de Natal para nos associarmos ao Cristo e começarmos a entender que sentimentos verdadeiros não moram em palavras vazias, mas sim em atitudes. E, vindo dos hipócritas, essas são as piores possíveis. Associados a líderes desfigurados pelo ódio, pela ganância e pela covardia, alguns de nós sequer conseguem visualizar o caos diante do nariz. Imaginem as tristezas e as mazelas decorrentes!

Esses tipos não são exemplos para ninguém, mas adoram opinar e dar lição de moral na vida dos semelhantes. Como disse George Orwell, ainda nos encontraremos no lugar onde não há escuridão. Até lá, que a harmonia se faça presente, que a união seja fortalecida e que a esperança se renove, trazendo alegria e realizações para o povo brasileiro. Torço ardentemente por isso. No entanto, desde o início desta década, o Brasil virou palco de um jogo de força em que ninguém parece disposto a recuar. A olhos nu, o Brasil poético está a milhas de distância do Brasil real.

Não sei para onde caminha a humanidade que pavimenta sua trajetória sobre a artificialidade de ideologias pífias, ultrapassadas, conservadoras e individualistas. Não sei, mas, quando souber, vou para o outro lado. Fazendo minhas as palavras de um pensador contemporâneo, lembro que, para a feiura, há plástica; para o peso, há o regime; e para os dentes, há aparelhos. Entretanto, para a falta de caráter e para a hipocrisia não há nenhuma ferramenta capaz de resolver. Por fim, a alegria do Natal não pode ser confundida com a fartura na mesa da hipocrisia que se transformará em lixo no dia seguinte.

É nosso dever cristão admirar os presépios montados nas igrejas, praças, botecos, inferninhos e lares do país. Todavia, não nos esqueçamos de olhar a tristeza nos olhos dos presépios humanos. Então que seja Natal, mas o Natal do amor e do nascer de Cristo, o filho do Eterno Criador. Para registrar, neste dia dedicado ao amor é bom sempre lembrar que o rabugento personagem Grinch não odiava o Natal. Como eu e todos os brasileiros do bem, ele odiava a hipocrisia das pessoas que sofrem de transtorno de caráter.

Independentemente de nossa formação religiosa e de nossas escolhas políticas, devemos estar atentos à máxima de que o único que poderia nos julgar, nos amou. O Natal dos sonhos é aquele que a gente idealiza no espírito, sente no coração e partilha na solidariedade. Eu faço isso. Pela lógica, sei que não agrado a todos. E pela minha vontade, não faço questão alguma. Que Deus nos livre daqueles que se disfarçam para fingir que encantam. Feliz Natal.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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