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No subúrbio nosso de cada dia, o povo é o artista principal do show da vida

Estudante universitário em Botafogo lá pelo meio dos anos 70, ultrapassei algumas vezes a fronteira entre o império e o arrabalde, entre o pó e a pedra, entre o sagrado e o profano. Embora haja uma relativa circunvizinhança, são dois polos que só se atraem nos arrastões, nos semáforos ou no asfalto.  Discípulo direto de um suburgatório, minha primeira opção é o subúrbio. A segunda, o subúrbio. A Zona Sul talvez seja a centésima. Ganho meu tempo lendo, assistindo, ouvindo, pesquisando, checando e perguntando sobre coisas do ser humano. Normalmente opto pela minha origem, o segmento menos aquinhoado, consequentemente o que tem mais vontade e disposição de viver e, sobretudo, de vencer. Por isso, apesar de ignorados como intelectuais, são os que dão aula de conhecimento.

Não sou artista, mas, como eles, gosto sempre de estar onde o povo está. É ele o astro do show da vida.  Não à toa, sou fã incondicional das histórias e das músicas de Jorge Ben, Wilson Simonal, Tony Tornado, Bezerra da Silva, Moreira da Silva, Arlindo Cruz, Tim Maia, Carlos Dafé, Cassiano, Alcione, Mumuzinho, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão (esse ‘moleque atrevido’), Martinho da Vila (que já teve tantas mulheres que não dá pra contar) e Dicró, assim como dos escritos do amigo Aécio Amado. Curiosamente, são todos pretos, suburbanos, de linhagem pobre e exímios contadores de história. Os que ainda estão vivos são novos ricos, mas mantêm a mesma essência suburbana, a qual não escondem nem nos shows ou talk shows elitizados. Contemporâneo da maioria deles, convivi com alguns, cujos nomes devo omitir por uma única razão: não tenho espaço para falar de todos na mesma narrativa.

De modo a não ferir suscetibilidades, citá-los-ei silenciosamente. Um deles, bastante conhecido na Baixada Fluminense, comprou seu primeiro carro na Feira de Acari. Era um usado – bastante usado -, daqueles que só pegava empurrando. Por conta desse fundamental detalhe, os amigos apelidaram o possante de Maestro: era um concerto em cada esquina. Depois de 18 anos no curso primário, o sujeito conseguiu se formar na malandragem honesta e, com mais dois amigos, percorreu o mundo cantando, contando causos e divertindo plateias de diferentes classes sociais e de inteligência variada. Também da Baixada Fluminense, um deles se aventurou na política local e foi banido do partido em sua primeira aparição pública.

Informado que precisava fazer um discurso inflamado e apelativo, o tenor suburbano chegou ao local do comício embonecado como se fosse um pavão. Começou o falatório pelo fim: “Meu povo, ajude um negão a andar de chapa branca sem ser camburão”. Até aí, tudo mais ou menos. A pedra começou a esquentar quando, sem pestanejar, perguntou ao povão: “Vocês têm água, têm luz, têm comida, têm segurança, escola, lazer?” A resposta foi não para todas as indagações. “Então, por que vocês ainda moram nessa merda de lugar?” Foi cassado antes de concluir a frase. Daqueles que tinha orgulho de ser preto – e não há razão para ser diferente -, o terceiro só reclamava quando o convidavam para uma peleja de tiro ao alvo.

A desculpa era conhecida Dicró e salteado: “Não vou porque o tiro ao alvo é preto e branco, mas todos só querem acertar no preto. Tô fora!”. Convidados para um show beneficente, o que adorava pensar na morte da Bezerra queria saber quanto ia levar na empreitada. “Mas é um evento filantrópico”, disse o que chamavam de Kid, o que acertou no milhar e abriu a porteira para o mundo superior. “Filantrópico? O nome do clube não me interessa. Meu negócio é a bufunfa?” Foi um custo informar ao moço que sempre pedia para a malandragem dar um tempo com a semente que beneficente é para beneficiar e não para pagar. Segundo dos três a partir dessa para melhor, curiosamente o Pai Véio também compôs a música Defunto caguete”.

Acho que, por conta dessa bizarra letra, seu velório foi um dos mais festivos da região. Apertando sem acender, aquele que adorava a sogra pensou logo na farra etílico-pagodeira. Mesmo sem convite, tocadores de pandeiro, reco-reco, cuíca, surdo e cavaquinho tomavam assento em volta do caixão. Para não fugir à regra, tinha de ter a vaquinha para adquirir a cachaça de litro e a carne de segunda para o churrasco em homenagem ao morto. Dez contos de cada um e não se toca mais no assunto. A viúva foi a única liberada do rateio. Belo, justo e abençoado gesto. Afinal, a desamparada senhora já havia contribuído com o defunto. Embora triste de ser lembrado, o final feliz da história é que, lá no céu, sem racismo e sem o tal do politicamente correto, certamente os três estão pintando, bordando e alegrando as santidades lideradas por São Pedro.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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