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Nordestino enfrenta pior estiagem em seis anos

O chão estala antes mesmo do sol nascer. A terra, rachada como pele cansada, guarda em silêncio a memória da última chuva. No Nordeste, a pior estiagem em seis anos não chega de repente — ela se anuncia devagar, no açude que baixa um palmo por semana, no milho que não vinga, no gado que emagrece junto com a esperança. Ainda assim, o dia amanhece, e com ele o nordestino se levanta.

A seca não é novidade. É velha conhecida, dessas que entram sem pedir licença e se sentam à mesa. Mas cada visita dói de um jeito diferente. Desta vez, o calor parece mais impaciente, o vento mais áspero, e a espera mais longa. A água virou cálculo: quantos baldes hoje, quantos amanhã. Banho curto, panela limpa com cuidado, roupa reaproveitada. O essencial vira regra; o supérfluo, lembrança.

No sertão, a vida segue em modo de resistência. Há quem acorde antes do sol para caminhar quilômetros em busca de água salobra. Há quem reinvente o plantio, apostando em sementes mais fortes, em técnicas antigas misturadas a soluções novas. Barraginhas, cisternas, reuso — a criatividade brota onde a chuva não vem. O saber passado de avô para neto se soma à ciência que chega pela mão de técnicos e projetos comunitários. É a tradição conversando com o futuro.

Mas a seca não castiga só o corpo; ela testa o espírito. O medo mora na dispensa vazia e no céu sem nuvens. Mesmo assim, a dignidade não seca. O sorriso resiste, a conversa na calçada acontece, a fé encontra caminhos. Na feira, a troca é mais do que mercadoria: é notícia, é consolo, é pacto silencioso de seguir em frente juntos.

Quando a noite cai, o calor ainda insiste. Sob o céu estrelado, alguém lembra que o Nordeste já atravessou piores travessias. Lembra que a chuva volta — pode demorar, mas volta. E enquanto não vem, a vida se organiza no possível. A seca ensina a dureza, mas também revela a grandeza de um povo que não se curva.

Nesta estiagem severa, o Nordeste mostra, mais uma vez, que sua força não depende do céu. Depende das mãos calejadas, da solidariedade cotidiana e da coragem teimosa de acreditar. Porque aqui, mesmo quando a água falta, a esperança não evapora.

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