Dizem os pensadores que, além de odiosa, toda superioridade gera uma ilusão de inferioridade. Seria um complexo os que pensam, agem e vivem assim? Com certeza. São aqueles que, muitas vezes, querem mérito daquilo que não se faz, daquilo que não é. Obviamente que as exceções são numerosas, mas boa parte do povo catarinense imagina que arrogância ou complexo de superioridade é um contrato social. Liderados pelo ultraconservador Jorginho Mello, atual governador, esses só conseguem ver o que querem e nunca o que é verdadeiro.
Não à toa, aos poucos o clã Bolsonaro vem transferindo seus deméritos e suas desventuras políticas em conserva para o Estado, hoje berço esplêndido da extrema-direita. Gente grande de verdade sabe que é pequena e, por isso, faz de tudo para crescer. Gente pequena acha que já é grande demais e o único modo de crescer ainda mais é diminuindo o semelhante. Com todo respeito e as necessárias escusas aos que não fazem parte dessa triste lista, mas só isso explica a necessidade de os plantadores catarinenses buscarem no Maranhão trabalhadores rurais para colher suas maçãs.
São quase 3,2 mil quilômetros de distância. O custo é alto e, numa situação de convivência convergente, realmente não se justifica. A menos que quem planta não saiba ou tenha preguiça de colher. Talvez eu queira ser mais realista do que o rei, mas essa busca insana pela superioridade gerou, no domingo de carnaval, seis mortos e 41 feridos no acidente com o ônibus que levava bóias frias maranhenses para catar as maçãs dos catarinos. Como um dia até os bem-nascidos mijam fora de penico, faz duas semanas que o Estado, mais precisamente o venerado Balneário Camboriú, foi tema das páginas policiais.
Foi um dia inusitado e, como alguns chegaram a imaginar, não se tratou de um fenômeno meteorológico, tampouco de um milagre, mas sim de uma provável queima de provas financeiras. Em meio a uma operação da Polícia Federal em um dos badalados endereços do balneário, o céu se iluminou e choveu cédulas novas e variadas de Real. Conforme a PF, o “temporal” inundou o play de um prédio de Balneário Camboriú com R$ 420 mil supostamente gatunados de aposentadorias de servidores do Estado do Rio de Janeiro.
Para quem não sabe, o Rio do governador Cláudio Castro é o nascedouro da Rioprevidência e das maracutaias do paranaense Deivis Marcon Antunes, braço “direito” de Daniel Vorcaro, o mesmo do Banco Master. Considerando a desnecessidade dos vizinhos do autor de tão nobre e milagroso gesto, o dinheiro espalhado no pátio não serviria para sanar as dificuldades de nenhum dos moradores do edifício. No entanto, certamente serviu como mote para o enredo de um bloco carnavalesco da periferia catarinense. Quem sabe Segredos de uma fantasiosa chuva de propina. Isso a repetidora local da Globo Luxo não contou.
Recentemente, o também conservador e pastor Sóstenes Cavalcante (PL), deputado federal pelo do Rio de Janeiro, foi flagrado em sua residência funcional com mais de R$ 400 mil em caixas de papelão. A desculpa esfarrapada foi a mesma dada pelo assessor do deputado José Guimarães (PT) pego no aeroporto de Congonhas com R$ 100 mil na cueca e R$ 209 na mala. No governo de Michel Temer, o então ministro Geddel Vieira Lima (MDB) não conseguiu justificar os R$ 42,6 milhões e os US$ 2,7 milhões encontrados em seu apartamento de Salvador. Tudo fruto do suor alheio. Nada diferente do que pensaram os empresários do agronegócio catarinense, os quais iriam enriquecer ainda mais com o suor dos catadores maranhenses de maçã que, infelizmente, ficaram pelo caminho.
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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras
