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Nota zero na Fuvest e o eufemismo do Direito

Na última semana um assunto que seria banal se transformou num frenesi nas redes sociais, claro, no mais das vezes com viés de maldade e sacanagem, sem empatia e análise crítica sobre o ocorrido, o que caracteriza as interações nas redes sociais. Trata-se da nota zero atribuída à redação de um vestibulando da Fuvest.

Em sua redação ficou destacado o uso de palavras e de um estilo de escrita revestidos de um eruditismo e construções que destoam do escrever e do falar simples que são as marcas das pessoas comuns. A nota atribuída decorreu da análise do texto por uma equipe de especialistas em redação, tendo como norte para correção as regras estabelecidas para a produção textual daquele vestibular.

O referido texto não se enquadrou no que se pedia; portanto, nota zero. Triste para o vestibulando que, creio eu, pensava estar construindo um belíssimo texto para impressionar, e conseguir altíssima nota, em sua tentativa de ingresso no curso de Direito de uma das mais tradicionais e prestigiadas escolas formadoras de operadores do Direito do país, a USP.

Não vou julgar o estudante, mas quero chamar atenção para uma questão que até agora, no geral, tem passado ao largo das opiniões inteligentes ou imbecis, dos comentários, das análises. Trata-se do papel da própria profissão de advogado e do comportamento de todos os operadores do Direito, incluindo aí instituições como o Judiciário, Ministério Público e escolas formadoras de advogados. E qual este papel? O tipo de linguagem utilizada constantemente em seu mister.

Será que o cidadão comum, que não está afeito ao palavreado e tipo de discurso presente nestas instituições compreende uma inicial, um recurso, um agravo, uma réplica, uma sentença? Afirmo que não. Até os nomes das peças são de desconhecimento do grande público. E por que isso, se premissas necessárias a uma boa redação são clareza, simplicidade e coerência, sem se descuidar do uso de um vocabulário que seja de fácil entendimento e acessível ao público a quem se dirige? Uma das regras básicas da linguística é menos e mais: menos rebuscamento, mais simplicidade e clareza, maior efetividade no processo comunicacional, pois o fundamental é o estabelecimento de uma boa comunicação.

Então, para a produção de uma boa redação com tema dado (o caso do vestibular), inclusive com texto suporte, devem ser seguidas estas premissas. Mas, será que o jovem de 18 anos tinha isso em mente, ou se deixou levar pelo rebuscamento na produção textual dos operadores do Direito brasileiro, talvez no afã de que isto seria necessário como passaporte para a entrada neste mundo cujo uso da linguagem é “especial” e diferente do que preconizam os princípios de uma boa comunicação?

Um dos elementos centrais na linguagem é o poder que ela exerce. Sendo assim, a linguagem não é neutra e recorrentemente é eivada de ideologia, e isto se verifica principalmente nos nichos, ethos onde a manutenção do poder é invariavelmente incentivada e praticada, como forma de proteção e de afirmação social. Desta forma, ela se restringe aos iniciados naquele ambiente e, via de regra, repele quem não se adéqua. Tomemos outro exemplo: o linguajar dos médicos e outros operadores de saúde, ambiente em que a forma de uso da linguagem repete o que se verifica em um tribunal quanto à especificidade e vocabulário muito particular.

Dito isto, coloco para reflexão o papel que o ambiente onde se exerce o Direito pode ter no “erro” do vestibulando. Ele pode ter sido traído por influência de uma prática que não contribui com a clareza nem com uma boa comunicação, mas que se auto alimenta numa tentativa de manutenção de um suposto poder, cujo acesso se torna restrito e excludente. A juventude daquele vestibulando, aliado a um valor irreal associado ao linguajar presente no ambiente do Direito, pode ter o empurrado rumo a ilusão de que o uso de um linguajar rebuscado e erudito de difícil acesso pudesse o colocar no lugar tão almejado. Mas as premissas linguísticas de uma boa redação não se fizeram presentes, portanto, não poderia ter sido outro o desfecho. A torcida para que o jovem tire lições positivas do episódio nas próximas tentativas.

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Antonio Eustáquio é correspondente de Notibras na Europa, de onde vê, de fora, fatos registrados no Brasil

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