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O antigo futuro é tão passado que não é mais presente

Um de meus escritores preferidos, Luiz Fernando Veríssimo não esperou 2026. Ele partiu aos 93 anos, isto é, bem antes do tempo. Ainda lamentando seu prematuro passamento, faço minha uma de suas mais belas frases. O futuro era muito melhor antigamente. E realmente era. Deixou de ser porque se tornou mais previsível do que o presente e, às vezes, mais tenebroso do que o passado. Considerando que, naquele tempo, a vida era um ciclo a ser vivido sob o modo conta gotas, hoje ou vivemos intensamente ou corremos o risco de sermos atropelados pelo relógio, pelo WhatsApp, Facebook, Instagram e até pelos automóveis elétricos. Mudou apenas o modus operandi.

Para quem não viveu o antigo futuro, informo que, em um passado nem tão distante, eu já fui um pão, boa pinta, bidu, joia, bicho-grilo, grilado, barra limpa, supimpa, batuta, xuxu beleza, um estouro e até da hora. Nunca fui cafona e jamais marquei touca. Comigo não havia o tal do papo furado. Pelo contrário. Sempre estava na boca de espera e pronto para botar pra quebrar ou estourar a boca do balão. Serelepe e bem transado, não tinha carango e nem tutu. Entretanto, sobrava borogodó.

Na boca da patota, meu borogodó parecia do tipo lírico, quase um barítono no caminho do soprano. Custava a sair, mas, quando saía, era massa. Podes crer que não era fichinha, sacou? Pra frente desde a mais tenra idade, vivia na pindaíba, mas, como pé de valsa e vestido na beca emprestada, virava bacana, um estouro, a ponto de deixar borocoxôs e bolados os caretas, os quadrados e os chatos de galocha do pedaço. Chocante, mas sem bode, zueira, fuzarca, treta ou perrengue.

A ordem do pedaço era lacrar. O termo gorar ainda não estava na boca da turma do balacobaco. Era puro papo furado, espalhado por lelés da cuca. Ao contrário do que mentalizam hoje, ripa na chulipa e pimba na gorduchinha nada tinha a ver com periquitância. Era somente o modo que um famoso locutor esportivo se referia ao estímulo de uma ação no campo de pelada e a um chute rápido e certeiro na direção do gol adversário. Gorduchinha era a bola e pimba o som do acerto no alvo.

Não sei se me faço entender, mas, no fundo, no fundo, tanto antes quanto agora, o objetivo de qualquer jogador físico ou semântico é a caçapa. Em síntese, o futuro é tão antigo como o passado que não é mais presente. É tudo a mesma coisa. Tão difícil como pensar atualmente em lascividades, é convencer meus dois netos de que, no meu tempo, não havia tanta promiscuidade na promiscuidade. Aportuguesando a coisa, convidar a noiva ou esposa para bater uma virilha tinha conotação mais divertida do que o clássico “vamos fazer menino?”. É somente uma questão de semântica.

Foi-se o tempo das clássicas profissões em qualquer escritório ou repartição pública de meados para o fim do século passado. Lembro até hoje o anúncio de uma grande empresa de contabilidade da época. Em letras garrafais, o gerente pedia uma boa datilógrafa. No pé do reclame, estava escrito: Se for boa mesmo, não precisa ser datilógrafa. Não é o meu caso, mas hoje é comum um homem enviar a foto do pescocinho de frango para uma mulher trans e receber outro de volta. Na linguagem do Facebook, fica pau a pau. Com todo respeito à geração Coca-Cola Zero, mas prefiro o antigamente, quando o pai era pai e não padrasto. Hoje, conforme textual de Veríssimo, a gente não faz mais filhos. Fazemos apenas o layout. Eles mesmos fazem a arte-final.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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