Brasília não é mais apenas o centro do poder; é também um laboratório político onde as fronteiras ideológicas se diluem conforme a conveniência eleitoral. E, nesse tabuleiro em permanente rearranjo, há uma força que se consolidou como eixo gravitacional, que atende pelo nome de bolsonarismo.
Não se trata mais de um grupo restrito à militância mais ideológica ou a nichos específicos. Na capital da República, o bolsonarismo ganhou musculatura, capilaridade e, sobretudo, amplitude. Hoje, ele transita com desenvoltura entre o centro pragmático, a direita tradicional e a extrema direita mais aguerrida. É um campo político, não apenas uma corrente de opinião.
Assim, como todo campo político robusto, tornou-se decisivo. Quem quiser governar o Distrito Federal a partir do próximo ano precisará, inevitavelmente, dialogar com esse segmento para ter os votos nas eleições de outubro próximo. Ignorá-lo é um luxo que nenhum candidato competitivo pode se permitir, e enfrentá-lo frontalmente, então, é quase um ato de voluntarismo eleitoral.
Segundo analistas políticos, a conta é simples e, ao mesmo tempo, implacável, indicando que vence quem conseguir capturar a maior fatia desse eleitorado.
Não significa, necessariamente, vestir a camisa do bolsonarismo raiz. Mas exige, no mínimo, sinalizações claras, pontes abertas e uma narrativa que não repila esse contingente. O eleitor bolsonarista, especialmente em Brasília, não é homogêneo, mas compartilha valores-chave como rejeição ao establishment tradicional, discurso de ordem, conservadorismo nos costumes e desconfiança das instituições.
Quem souber modular esse discurso sem cair na caricatura ou no radicalismo improdutivo, larga na frente. O curioso é que essa centralidade do bolsonarismo redesenha alianças. Figuras do centro começam a ajustar o tom. Lideranças da direita tradicional revisitam posicionamentos e até setores que antes faziam oposição cerrada ensaiam movimentos de aproximação silenciosa.
Claro, observam marqueteiros que já se movimentam por comitês eleitorais, nada disso é por convicção, mas por sobrevivência. Porque, no fundo, a eleição no Distrito Federal tende a se transformar em uma disputa por herança política. Não apenas votos, mas símbolos, narrativas e pertencimento.
Quem herdar melhor o capital político do bolsonarismo, ainda que parcialmente, terá vantagem competitiva real. Quem ficar de fora, corre o risco de disputar um eleitorado residual, fragmentado e insuficiente para chegar ao Palácio do Buriti. Esse é o novo centro de gravidade da política brasiliense, que não precisa pedir licença, mas apenas impor sua força.
