Na guerra que, embora silenciosa, mostra-se devastadora pela sucessão do Palácio do Buriti, a governadora Celina Leão (PP) não luta contra um exército, mas contra uma constelação de adversários no seu próprio entorno. São muitos, dispersos, barulhentos. Mas ela, uma só. E talvez por isso mesmo, o campo de batalha tenha assumido contornos de uma verdadeira Guerra de Tróia.
Ao seu lado, há quem enxergue a figura de um estrategista de alma rural, quase um príncipe Páris de botas sujas de terra e olhar treinado para o horizonte. Cabe a ele, somado ao instinto político da própria governadora, apontar onde mirar as flechas decisivas, capazes de atingir três alvos que não podem ser ignorados.
O primeiro calcanhar é o nó do BRB-Master. Esse imbróglio transformou-se numa bomba-relógio de reputação e solvência. A solução não pode ser morosa nem burocrática. Exige precisão cirúrgica, diálogo direto com o Banco Central, como vem acontecendo, e, sobretudo, articulação política de alto nível, o que inclui bater à porta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Se conseguir transformar crise em solução com traços de narrativa de liderança, Celina não apenas desarma o artefato, como converte um passivo em ativo eleitoral.
O segundo calcanhar atende pelo apelido de régua da lei que não pode entortar. Tudo porque, em uma cidade onde barracos são derrubados sob o peso da legislação, causa ruído ensurdecedor a permanência de uma mansão irregular em área pública, pertencente ao presidente da Câmara Legislativa, Wellington Luiz (MDB).
Aqui, não se trata apenas de urbanismo, mas de simbologia. Ou a lei é para todos, ou deixa de ser lei para virar conveniência. Se a Secretaria DF Legal age com rigor nas periferias, não pode hesitar diante de construções palacianas de aliados. A coerência, nesse caso, vale mais que mil discursos.
O terceiro calcanhar vem do desgaste interno também originário a Câmara Legislativa. A manutenção do deputado Hermeto, outro emedebista, na liderança do governo, sob a sombra de denúncias de rachadinhas, funciona como uma brecha nas muralhas, pois pode parecer pequena à distância, mas perigosa quando observada de perto.
Em tempos de vigilância permanente, onde as redes sociais funcionam a todo vapor, a oposição é cada vez mais aguerrida e o eleitor está sempre atento, ruídos éticos ganham proporções de escândalo. E a substituição de Hermeto, ainda que politicamente desconfortável, pode representar um gesto de assepsia necessário.
Se conseguir cravar essas três flechas com precisão ao resolver o caso BRB-Master, impor isonomia na aplicação da lei que impõe a derrubada de imóveis irregulares e reorganizar sua tropa interna, Celina atravessa o campo minado com escudos reforçados.
O que não pode – e esse é um detalhe essencial – é que ela aja como Helena, que divide e provoca guerras. Celina precisa ser a estrategista que soma, agrega e conduz. Em Brasília, guardadas as devidas proporções com Troia, não vence política quem incendeia, mas quem sai da guerra de pé, com os votos na urna e o poder nas mãos.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
