No futebol brasileiro da atualidade, para ser um craque o requisito máximo é diferenciar uma bola de uma pedra. Saber chutá-la é para os fora de série. Driblar só para os antigos. Para ser deputado estadual, vereador e prefeito, a qualidade mínima é conhecer um dono de lanchonete ou um empresário do ramo de bebida, ambos com capacidade de bancar os convescotes de fim de semana para os cabos eleitorais e eleitores que se vendem por uma Pepsi. Como o voto vale conforme o povo que vota, para esse grupo a Coca-Cola está fora de cogitação, pois é cara demais. Presidente, governador, senador e deputado federal são outros quinhentos.
Aliás, põe quinhentos nisso. Deputado federal e senador são cargos federais e dispensam concurso público e apresentação de diploma secundário e universitário. É suficiente saber ler, escrever e assinar o nome. Para sonhar com uma das 584 vagas do Congresso Nacional é desnecessário ter boas ideias, propostas maravilhosas, ser honesto ou ter ficha limpa. Além de comandar uma entidade de classe com poder econômico pelo menos razoável, basta ao candidato ser pastor evangélico, general, coronel, capitão, doutor, professor, membro de uma facção com abrangência nacional e ter pouca vocação para o trabalho. Com raras exceções, o resultado financeiro é imediato.
Mais importante do que tudo é o postulante se valer de um suplente endinheirado e com disposição para assumir o mandato por, no máximo, duas semanas. Não há nenhuma exigência sobre a obrigação de respeito à Constituição ou de servir ao povo e ao país. O Legislativo é realmente a Casa de Mãe Joana. Seus membros ganham inclusive por espirros dados, não gastam nada e trabalham menos ainda. Mal comparando, o dia a dia de um parlamentar municipal, estadual e, principalmente, federal é análogo à situação dos pegadores de onda na orla brasileira. Ou seja, nadam, nadam e nada fazem.
Para ser governador, as facilidades são ainda mais interessantes. A condição sine qua non é se agarrar de corpo e alma nas mãos, pés, braços e, se necessário, até nas partes pudendas dos presidenciáveis mais cotados. É claro que isso não é o bastante. Não precisa ser nascido no estado que vai governar, mas é de bom alvitre conhecer os proprietários e frequentadores de todos os inferninhos da cidade, os padres, os pais de santo e os chefes das comunidades, bem como suas lideranças vivas, mortas, ativas e inativas. Os usuários de droga votam, mas não ajudam nas campanhas. Por isso, apesar de crime eleitoral, o melhor é ser amigo de quem vende.
Depois de eleito, é claro que as batidas nos morros para eventuais matanças têm de ser combinadas previamente com os mandachuvas dos morros, de modo que eles tenham tempo hábil de tomar banho, se perfumar e fugir para local sabido, mas ignorado pelas autoridades competentes. O salário é dos melhores. O escolhido pelo eleitorado mora em palácio, vive cercado de seguranças e só volta a se aproximar do povão quando há necessidade de se reeleger ou de se eleger para uma nova função. Quem sabe a de presidente da República.
Além dos requisitos básicos, como nacionalidade nata, idade mínima de 35 anos, estar em pleno exercício dos direitos políticos, domicílio eleitoral, filiação partidária e honestidade mediana, para ser presidente o buraco é um pouco mais fundo. Nada que impeça qualquer um de tentar. Empatia e vontade de trabalhar pelo todo da sociedade, isto é, cerca de 213 milhões de brasileiros, não são meros detalhes. Para a maioria, pouco importa que o candidato seja de direita ou de esquerda. Entretanto, é fundamental que ele não tenha resquícios golpistas ou lampejos tirânicos, que não confunda Tratado de Tordesilhas com tarado atrás das ilhas e que apresente um mínimo de experiência, algo como já ter administrado pelo menos uma casa séria de lenocínio. Loja rachada de chocolate não vale. Pensemos em tudo isso em outubro.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais
