A pesquisa do Instituto Futura Apex sobre a sucessão presidencial caiu em Brasília como pedra em lago parado. O levantamento, feito entre 3 e 7 de fevereiro, rompe um padrão que vinha sendo tratado quase como dogma. É que pela primeira vez, o senador Flávio Bolsonaro (PL) surge em vantagem sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tanto em cenários de primeiro turno quanto em uma simulação de segundo.
Com 2 mil entrevistas e margem de erro de 2,2 pontos percentuais, o estudo, divulgado na segunda, 10, aponta um ambiente de competição real e visto como perigoso para quem apostava em favoritismo automático. No primeiro turno, Flávio oscila entre 35% e 39%, colado em Lula nos diferentes cenários testados. No segundo, abre cerca de seis pontos: 48,2% a 42,4%. Não é detalhe estatístico, mas uma provável mudança de vento.
O dado que mais inquieta adversários não é apenas a fotografia, mas a engrenagem por trás dela. Flávio reúne três ativos raros numa eleição nacional: conhecimento do eleitorado, núcleo de voto firme (“votaria com certeza”) e rejeição menor que a do principal rival. Traduzindo do politiqês, o senador parte de um piso robusto e tem menos teto para furar.
Nos bastidores, a leitura é que existe um contingente crescente de eleitores fatigados da polarização tradicional e à procura de alternativa que pareça competitiva sem representar salto no escuro. É aí que os números começam a ganhar vida própria, porque pesquisa, em política, não apenas mede, mas também organiza expectativas, movimenta alianças e destrava financiamentos.
Respeitados os limites metodológicos, o recado é direto, mostrado que 2026 pode deixar de ser uma disputa entre biografias históricas e virar um campeonato de viabilidade comprovada. Quem apresenta chance concreta de vitória passa a atrair o chamado voto útil, o pragmatismo partidário e a benevolência do mercado.
Os números evidenciam que algumas lideranças emergem não pelo discurso mais inflamado, mas pelo desempenho frio das planilhas. Competem no primeiro turno, vencem no segundo e mantêm a rejeição sob controle. Nesse retrato, Flávio Bolsonaro deixa de ser apenas herdeiro de um capital político e passa a figurar como ativo eleitoral mensurável, com musculatura e espaço para crescer.
Se a tendência se mantiver, a sucessão presidencial pode entrar em modo menos passional e mais matemático. Ganha quem soma, quem agrega, quem assusta menos do que promete. Para um eleitor cada vez mais desconfiado, previsibilidade virou virtude.
E é justamente aí que a pesquisa faz barulho, uma vez que sugere que o jogo, antes tratado como previsível, pode estar aberto e talvez virando. Se é fogo de palha ou início de incêndio, os próximos levantamentos dirão. Mas ninguém em Brasília fingiu que não viu a fumaça.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras
