Na versão difundida a céu aberto pelos adeptos da filosofia bolsonarista, a esquerda que já “comeu” criancinhas, tomou casas que não era dela e criou os pobres para mamar nas tetas dos ricos é a mesma do século passado. Para os conservadores de araque, hoje os simpatizantes da esquerda não passam de um amontoado de comunistas que transformaram os pobres no principal mote de campanhas eleitorais. Pode ser. E é. A diferença é que, para os capitalistas, isto é, para a direita sem pudor, os pobres não deveriam nem nascer. Apesar de privatizados, eles aborrecem e são detestáveis para os mais favorecidos.
Para encurtar a conversa, sem encerrá-la, se o capitalismo fosse um ótimo sistema, seus defensores não estariam trabalhando para destruir o planeta. Espinhoso, mas necessário, o tema mereceria glossários, ensaios, almanaques, roteiros, filmes concorrendo ao Oscar e, quem sabe, enciclopédias com dezenas, talvez centenas de páginas em branco. Não poderia ser diferente, na medida em que, para a direita, os bons são ruins. Consequentemente, os ruins merecem todos os louros, troféus e, se a esquerda deixasse, anistia geral e irrestrita. Como ainda não faz parte do passado, o 8 de janeiro está aí para lembrar ao povo do bem que vândalos serão sempre vândalos.
Às vezes, a pedido de falsos cristãos e de profetas antidemocratas, eles flertam com o terrorismo. Por isso, como cidadãos perigosos, precisam do castigo para pensar que, ao contrário do que lhes dizem, não foi a esquerda progressista que protagonizou um golpe e imaginou outro. Também não partiu desse segmento ideológico qualquer iniciativa no sentido de aviltar, tomar emprestado ou negociar a custos irrisórios a dignidade do eleitorado nacional.
E lembrar que a direita, com seu pomposo discurso do medo e do ódio, quase nos roubou a esperança. Toda essa discussão parece um filme de surdos-mudos roteirizado para cegos. Recuando três ou quatro décadas no tempo, chegaremos facilmente à conclusão de que não foi a esquerda que retirou direitos do trabalhador, tratou pessoas como moeda de troca, elevou a elite à condição de líder inalcançável do proletariado, impediu a vacinação de doentes, tampouco tentou afanar um dos maiores bens do povo: a liberdade.
Se a esquerda não tivesse reagido, a essa altura certamente o Brasil já estaria sob nova direção. Os fantasmas que o conservadorismo nos vendia como nocivos à pátria e à tranquilidade da sociedade mudaram de roupa e quase nos levaram o coração, a alma e o prazer de ser brasileiro. Foi um tempo em que os menos desinteligentes perceberam que, mais drástica, tóxica e danosa do que a maldade, só os acordes e os apupos endeusadores dos bons, dos fanáticos pelos trogloditas fantasiados de mitos ou de príncipes.
São esses que, mesmo contrariando a lógica e a verdade, insistem em afirmar que, ao buscar igualdade entre os cidadãos, é a esquerda que vai dilapidar o país. Na ânsia de mentir, eles esquecem de dizer que, muito recentemente, foi a direita indigna, ineficaz e indelevelmente marcada pelo mal que entregou à elite política o gerenciamento do Orçamento da União, as emendas parlamentares, o comando das instituições públicas. Sem contar que quase perdemos a soberania para o brother Donald Trump. Por pouco, os conservadores não conseguiram chamar o Brasil de seu. Apenas para registro, não foi o comunismo que tomou para si o ouro negro da Venezuela.
Culpar a esquerda das mazelas do Brasil é um antigo e ultrapassado modismo da direita. Diria um sábio apresentador que, enquanto os cães ladram, a caravana passa. E tem sido assim. Seus representantes não sabem – ou fingem não saber – que, pior do que os mexericos, é a certeza de que o que eles pregam ou entregam é claramente produto de ficção. Como dizem os realistas, ontem, hoje e sempre a idolatria à direita não passa de uma película que mistura loucura com terror. Esse tipo de filme mal começa e toda a plateia já sabe como acabará. Foi assim com aquele presidente que, para a maioria da população, inaugurou a Inteligência Artificial no Brasil.
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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras
