Em Brasília, até camisa de futebol tem CNPJ oculto — e, convenhamos, não é de hoje que o jogo começa muito antes do apito inicial. Pois eis que o presidente da Câmara Legislativa, Wellington Luiz (MDB), e o vice, Ricardo Vale (PT), resolvem posar para a posteridade institucional — repita-se: institucional — exibindo com entusiasmo quase juvenil o uniforme de um time local. Nada demais, dirão os inocentes úteis. Só futebol. Só esporte. Só lazer. Claro. E Papai Noel despacha do trenó no Eixo Monumental.
O detalhe é que a tal camisa vem carimbada com o nome de uma potência do atacado brasiliense, dessas que não entram em campo para perder. E quando dois pesos-pesados da política local, vindos de partidos que vivem às turras no discurso, aparecem sorridentes, lado a lado, servindo de outdoor involuntário (ou nem tanto) para uma marca privada, o que se tem não é um registro esportivo, mas um ensaio fotográfico do poder econômico vestindo a política e ainda por cima pedindo pose.
Não se trata aqui de ingenuidade, mas de método. A política moderna, sobretudo no Distrito Federal, aprendeu a operar com símbolos. O dinheiro, coitado, não gosta mais de andar com crachá. Prefere circular perfumado, em ambientes institucionais, com cara de apoio cultural, incentivo ao esporte, responsabilidade social. Tudo teoricamente muito limpo, tudo muito correto, tudo dentro da lei, até o momento em que se percebe que o tabuleiro já está montado e que os peões, ainda que bem vestidos, sabem exatamente a quem servem.
Porque eleição custa caro. E ninguém — absolutamente ninguém — injeta recursos, diretos ou indiretos, por altruísmo republicano. Empresa não faz caridade política; faz investimento que, como se sabe, exige retorno. Às vezes, respeitado o campo da suposição, em contratos ou em facilidades. Às vezes, apenas, em portas abertas onde antes havia fila.
A cena, publicada no site oficial do Legislativo, não é um detalhe irrelevante. É uma mensagem das mais claras para quem já viu esse filme antes. Na Capital, o capital está se organizando, escolhendo interlocutores, testando vitrines, marcando território. E, pelo visto, não faz muita questão de esconder o jogo, até porque talvez saiba que, por aqui, a memória é curta e a indignação tem prazo de validade.
Curioso, aliás, como a ideologia se dissolve quando o patrocinador entra em campo. MDB e PT, que em palanque trocam farpas e acusam o mundo e o fundo, aparecem unidos pelo mesmo tecido; no caso em questão, ainda mais importante, pelo mesmo logotipo. A divergência fica para o discurso. O velho e conhecido pragmatismo resolve o resto no camarim.
E assim, sem barulho, sem escândalo, sem manchete estridente, vai se desenhando o mapa real das eleições de outubro. Não aquele que será vendido ao eleitor, com promessas de mudança, justiça social e gestão eficiente. Mas o outro, verdadeiro, que se constrói nas entrelinhas, nas fotos aparentemente inocentes, nos encontros que “não dizem nada”, mas dizem tudo.
O perigo não está no flagrante. Está na naturalização. Quando agentes públicos passam a funcionar como extensão estética de interesses privados — ainda que sob o pretexto mais inofensivo — o que se perde não é apenas a liturgia do cargo; o que se vislumbra é a fronteira entre quem decide e quem financia a decisão.
No fim das contas, a camisa pode até ser de time. Mas o campeonato é outro. E, como de costume, o torcedor só descobre quem pagou a conta quando o placar já está definido, e a fatura, inevitavelmente, chega no bolso de quem nunca foi convidado para o camarote.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras
