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Política brasileira, antes arte, hoje é fraude

A busca obsessiva pelo poder é um tema recorrente na literatura, na política, na filosofia, no mercado financeiro e até no dia a dia do trabalhador menos afeito ao sacrifício. Frequentemente, ela está associada à corrupção, à ambição desmedida e ao esquecimento de valores e limites éticos. Por isso, é comum ouvirmos daqui para lá e lá para cá que o poder corrompe os fracos e os sem caráter. São aqueles que, por fazerem tudo pelo dinheiro e pelo poder, acabam fazendo tudo por nada. Para esses, o resultado é o desprezo eterno.

Sem margem alguma de erro, a ganância e a cobiça pelo controle é a melhor isca para que as pessoas se revelem. A afirmação está resumida na antológica frase do ex-presidente dos EUA Abraham Lincoln: “Dê poder a um homem e verás quem ele é”. Em um país onde o dinheiro está acima de tudo, valorizado é aquele que oferece mais vantagens e benefícios. É a bajulação explícita, explicitamente gerada por interesses, definida pelos sábios na máxima de que é pelo canto do galo que a raposa acha o poleiro.

Embora saiba que adular não é meio de vida, mas ajuda a viver e que o homem dólar não é o homem do lar, me causa ranços observar que atualmente a política brasileira deixou de ser uma arte e passou a ser uma grande fraude. O problema é o silêncio da maioria esquecida de que uma sociedade calada é sinônimo de políticos surdos. Em outras palavras, a corrupção, as mazelas e o desinteresse das excelências de um segmento ideológico pelo eleitorado de outro são frutos de nossa indiferença política.

Uma coisa é ser de esquerda, de direita ou da PQP. Outra coisa é fazer questão de varrer para debaixo do tapete a tese de que, por escolha ou omissão, a população tem o governo que merece. Como disse o romancista e ex-senador francês Victor Hugo, “entre um governo que faz o mal e o povo que o consente há uma certa cumplicidade vergonhosa”. Por isso, considerando que a política de hoje é a condução dos negócios públicos para proveito de particulares, não temos mais tempo a perder. O que está posto não é sobre ter poder, mas sobre não retroceder.

O que foi ruim tem de ser esquecido. Diante do que resultou em coisa alguma, o que é mais ou menos precisa ser mantido, pelo menos até que consigamos algo ou alguém que não nos utilize como instrumentos ou nos divida entre fanáticos e inimigos. Na política do Brasil e de qualquer lugar do mundo, a primeira pessoa do singular sempre construirá a primeira do plural, não importando em que ordem entre as demais. Eis a razão pela qual o voto é tão importante na construção e, sobretudo, na consolidação de democracias.

Antes de se esconder no silêncio conveniente ou se fantasiar de neutralidade, o eleitor brasileiro precisa se conscientizar de que brigar por causa de política no atual cenário é o mesmo que ter crise de ciúme na zona. Como sei que é praticamente impossível imaginar os políticos brigando pelo povo com a mesma força que o povo tem brigado por eles nas redes sociais, sonho com o dia em que esse mesmo povo vai acordar e se unir. Nessa data, os governantes não conseguirão dormir.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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