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Políticos ruins vivem entre almas atormentadas e diabos atormentadores

Normalmente prefiro usar os domingos para amenidades. Entretanto, às vezes me sinto na obrigação de extravasar. Foi o que pensei para hoje, Dia Mundial da Água. Que tenhamos a mente e a alma lavadas e enxaguadas por aqueles que usam a política para promover a paz, pregar a liberdade e se opor diariamente à tirania. Em qualquer país democrático, a essência da política é a verdade em troca da coerência. É, principalmente, a certeza de que a conquista do poder e da consagração é resultado da coragem e da determinação de todos os que se fazem verdadeiros porta-vozes do povo. Afinal, ninguém chega ao pódio se não tiver propósitos, firmeza, perseverança e determinação.

No Brasil republicano, tivemos poucos presidentes com esse perfil. Os mais velhos sabem e os mais novos deveriam saber que alguns deixaram vestígios, de outros sobraram boas e más impressões e alguns poucos provocaram cicatrizes. Um muito mais do que os outros. Historicamente, não custa lembrar que, na extensa lista de mandatários, direta ou indiretamente incluímos presidentes populistas, loucos, corruptos, charlatães, entreguistas, demagogos, despreparados e perversos. Sem margem de erro para baixo ou para cima, tivemos tudo isso ao mesmo tempo entre 2018 e 2022. Desnecessário nominá-lo, na medida em que o Brasil inteiro aprendeu com a necessária rapidez a desconfiar de quem desconfia demais.

De minha parte, desconfio de todos os que se sublimam, isto é, que se enaltecem e se purificam gratuitamente. Esses são os mais bárbaros, os mais impiedosos e traiçoeiros. Associando a política a um rio e o povo às suas margens, faço um breve recuo no tempo da política para lembrar que, nas campanhas de 2018 e de 2022, os discursos mais ferozes indicavam que, caso vencessem, os comunistas iriam acabar com o Brasil. Os que se acostumaram a viver da crítica ganharam em 2018 e o país quase desmoronou. A esquerda venceu em 2022 e os bons resultados estão estampados em letras garrafais para Deus e o mundo.

Entre outras vitórias acumuladas, o desemprego continua em baixa, a renda melhora e o índice de miséria deve alcançar o menor patamar histórico. Enquanto isso, os outros tentam forjar novas mentiras. É a estratégia dos fracassados. Inquestionavelmente, as lágrimas dos que hoje choram por conta da vitória do candidato progressista caem na porta errada. Não foi o atual presidente quem os abandonou e os chamou de maluco para evitar sua prisão. Passados quase quatro anos da nova gestão, eu e cerca de dois terços do povo brasileiro temos a certeza de que o antecessor do inquilino do Palácio do Planalto é a segunda maior vergonha do país.

A primeira são todos aqueles que votaram nele e que continuam saindo às ruas “exigindo” liberdade para um golpista assumidamente em estágio probatório. Em nome da mente inovadora, a do moço que mente todo dia, a turma que sistematicamente convoca manifestações pela democracia é a mesma que tentou ou defendeu o fracassado golpe de 8 de janeiro de 2023. Alguns desses deram a mão à palmatória e, com a lucidez conquistada, lamentam ter de se esconder por falta de argumento para amenizar as mazelas do governo anterior.

Os que praguejam e que não preferem a democracia desconhecem o termo respeito. Respeitar os adversários deveria ser a palavra de ordem na política e em qualquer outro segmento da vida pública. Deveria, mas não é. Amantes da desinformação, certamente eles também esqueceram que a admiração e o respeito são pressupostos básicos da boa convivência entre os diferentes. Portanto, o que falta na discussão política da atualidade é simplesmente a reciprocidade dos respeitados. Arte do possível, a política é a artimanha de conquistar admiradores e não fantoches. Para os que não sabem o que dizem, o bom político é aquele que, antes de pedir votos, conquista eleitores. Quanto aos ruins, de dia eles são almas atormentadas e, à noite, diabos atormentadores.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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