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Presente caro, a honestidade não é comum em pessoas baratas

Mesmo carregado de defeitos, me considero honesto e patriota até nos momentos de caminhadas extremas. Por exemplo, nos embargos auriculares noturnos que costumo ter com São Pedro não peço nada bruto ou de acesso complicado. Semana passada, esquecidos os excessos do dilúvio decorrente do acúmulo de emendas parlamentares no ralo, pedi ao santo de todas as chaves para que, na próxima encarnação, eu volte à Terra pelo menos remediado. Se for para nascer pobre, não largo a placenta nem com cesariana. Ele não me prometeu nada, mas disse que ia pensar no meu caso.

Tão secreto como o Orçamento da União no bolso dos deputados e senadores do PL, meu pedido por honestidade para os políticos está na primeira prateleira do escaninho particular de Mestre Pedro. Mesmo sem confundi-lo com Dom Pedro, sei que o santo entendeu que, se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto para seguir viagem ainda na era de Donald Trump, o homem que teve coragem de, num tête-à-tête com o ditador Nicolás Maduro, pensar alto que “O mundo não é de todo ruim. Ele só está mal frequentado.”

Não sei se Maduro engoliu, mas, sem resposta para uma afirmação tão lógica, o déspota venezuelano ficou sem alternativa. Resignando-se à própria insignificância, que é a forma mais cômica de sabedoria, Nicolás acabou permitindo a Trump mamar a céu aberto e sem filtros boa parte do leite preto produzido nas entranhas do mito Hugo Chaves. Acabou preso em uma fortaleza aparentemente de algodão doce. Sinceramente, mito por mito, prefiro o nosso. Apesar de Messias, o mito brasileiro só descobriu até onde podia ir quando já estava indo. E foi!

Aliás, diga-se de passagem, foi graças a ele (o nosso mito) que o eleitor nativo compreendeu o motivo de o voto deve continuar rigorosamente secreto no Brasil. Afinal, essa é a única forma que os chamados patriotas votam sem ter vergonha. Deve ter sido a ausência de vergonha e de consciência a razão pela qual nenhum deles viu a obra suja do idolatrado mito, aquele que jamais foi informado que, mais do que virtude, honestidade é um dever moral. De repente estou exagerado nessa premissa antipatriotas. Dou a mão à palmatória, pois eles são livres, realmente livres, completamente livres. Tão livres que não têm medo do ridículo.

Nas conversas de pé de ouvido com o apóstolo São Pedro, normalmente sou instado a jamais desrespeitar uma coisa que a Sandy tem, mas não usa, o Lula tem, mas não costuma usar, Obama tem um curto, Bolsonaro tem e se acha santo e o Schwarzenegger tem um longo e potente. Mentes sujas, estou me referindo ao sobrenome. Meu Deus! Como dizia o papa Luiz Fernando Veríssimo, não é o sobrenome que determina a ninguém ser o que parece ou o que aparece. “O essencial não há quem enxergue.” Foi assim com o Jair, com o Eduardo, com a Zambelli, com o Ramagem e até com o Sóstenes, o deputado que, não à toa, foi batizado com um dos apelidos do órgão sexual feminino. Sóstenes só usa o Cavalcante para…lascar o povo.

Sem prova alguma de honestidade, eles são o exemplo clássico de que, às vezes, a única coisa verdadeira em seus discursos é o microfone. E lembro bem que, no último papo dez com São Pedro, disse a Ele que só acredito naquilo que posso tocar. Ou seja, não creio em um músculo nadegal de Anitta, nas promessas do mito, tampouco na falta de uso da cavidade bucal de Gil do Vigor. Como sei que o ex-BBB tem carro, se tivesse oportunidade perguntaria se tem como ele levar uma cunhada minha no centro. Só de pensar em perguntar levei um pito. Caramba! A cunhada em questão é apenas a irmã de minha mulher. Depois do pretenso lero-lero literário, cheguei à conclusão de que a honestidade é um presente muito caro. Por isso, meus caros confrades, não imaginem que isso seja comum a pessoas baratas.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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