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Prisão de Queiroz pode enterrar o clã Bolsonaro

A prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro (Republicanos), pouco impacta o negócio das milícias no Rio de janeiro, que seguem em franca expansão, mas pode comprometer família Bolsonaro. Essa é a avaliação do sociólogo José Cláudio Souza Alves, especialista na atuação de grupos milicianos e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Queiroz estava no sítio de Frederick Wassef, advogado de Flávio e do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), quando foi preso em ação da Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo. Ele é investigado por participar do esquema das “rachadinhas”, apelido da prática ilegal de recolhimento e devolução de parte dos salários de funcionários em cargos públicos, quando o senador Flávio Bolsonaro era deputado estadual no Rio de Janeiro.

Embora a ação que culminou na prisão de Queiroz nada tenha a ver com o assassinato da vereadora Marielle Franco, José Cláudio acredita que ele pode ter informações sobre o crime, que completou dois anos em março deste ano. Isso porque Queiroz é ex-PM e trabalhou no mesmo batalhão do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, miliciano que foi morto em fevereiro e pertencia ao Escritório do Crime, grupo onde atuavam os dois acusados de executar a vereadora.

Quando o ex-capitão foi assassinado em uma operação policial, José Claudio chegou a dizer que ele era “o arquivo vivo do caso Marielle“. Além de terem trabalho juntos, Queiroz e Adriano eram amigos. E os dois, por sua vez, mantinham relações profissionais e laços de amizade com a família Bolsonaro.

“Afetar a milícia, não. Ela continua crescendo, não afeta em nada. Fabrício era apenas uma peça no tabuleiro [das milícias], que tem muitas delas sendo jogadas e são substituíveis”, avalia Alves.

As consequências para o presidente e seus filhos, porém, dependem de como as investigações vão caminhar daqui para frente. “A questão é: que informação vão obter com ele, que informação decisiva para o comprometimento dos Bolsonaros vai ser trazido à baila para a sociedade”, afirma.

Leia trechos da entrevista:

O que representa a prisão de Fabrício Queiroz?

O Queiroz, a meu ver, é uma peça-chave já há algum tempo. Ele se transformou nessa figura com a morte do Adriano Magalhães da Nóbrega, em fevereiro. A meu ver, esse [a morte de Adriano] foi um procedimento agendado, calculado em função do ano eleitoral que estamos atravessando. Era decisiva a eliminação dele enquanto principal testemunha tanto no caso que está levando à prisão o Fabrício Queiroz, que é o esquema de envolvimento de verbas parlamentares do Rio de Janeiro com a construção e venda de imóveis clandestinos e ilegais pela milícia na zona oeste, principalmente a milícia de Rio das Pedras, como no outro crime que se aproxima muito dessa investigação, que é o assassinato da Marielle Franco.

Como as duas coisas estão interligadas?

Tanto o Fabrício quanto o Adriano, bem como o Ronnie Lessa [ex-PM acusado de ter executado Marielle Franco e Anderson Gomes em fevereiro de 2018], comungavam de uma intimidade e aproximação de relacionamentos e de ações que efetivamente praticavam. Essa comunhão e constituição desse grupo é chave, essencial para esses dois grandes crimes que afetam o Rio de Janeiro e o Brasil como um todo. E que vai, de certa forma, trazer a baila o comprometimento da própria família Bolsonaro por conta do envolvimento do Flávio Bolsonaro. A prisão se deu em um sítio de um advogado que é comum do Flávio e do Jair Bolsonaro. Isso tudo tem uma aproximação muito grande.

Qual impacto da prisão para a ação das milícias?

Afetar a milicia, não. Ela continua crescendo, não afeta em nada. Fabrício era apenas uma peça no tabuleiro, que tem muitas delas sendo jogadas e são substituíveis. Ele é uma tranquilamente [substituível]. As milícias no Rio de Janeiro estão se expandido, não têm sofrido tanto impacto, mesmo com operações policiais, com a morte do Adriano, com a própria prisão do Fabrício acredito que elas permaneçam na sua grande fase de expansão nesse momento. O efeito maior pode ser sentido na própria estrutura do poder do país que hoje está na família Bolsonaro. Mas isso depende de como essas investigações serão conduzidas.

É possível avaliar este impacto?

A questão é: que informação vão obter com ele, que informação decisiva para o comprometimento dos Bolsonaros vai ser trazido à baila para a sociedade. Que exposição essas informações vão ter? Isso que é decisivo daqui para frente. Se as informações trouxerem comprometimento real, há possibilidade de impedimento de Bolsonaro por um outro viés que não seja o congressual (por meio do Congresso Nacional), um meio jurídico direto. Mas não tenho certeza disso, desse cenário.

Por quê?

Para mim não é um cenário tão simples. Tudo indica e essa é a conjuntura mais complexa: os confrontos dos apoiadores e do Bolsonaro com STF (Supremo Tribunal Federal), os confrontos com Congresso, o embate com a mídia e ataques feitos por essa estrutura de poder, os grupos que sustentam essa estrutura envolvendo as Forças Armadas, o aparato policial de vários estados em uma grande rede, os apoiadores financeiros. Tudo isso leva a crer que esse momento agora, por mais que possa trazer informações pesadas e o comprometimento da estrutura da família Bolsonaro e dos apoiadores envolvendo esse crime das milícias, ainda não é algo decisivo para se pensar que possa colocar fim a esse projeto.

Há um explicação para isso, para esse cenário de apoio inconteste ao presidente?

Está muito enraizado, tem muito apoio ainda. A estrutura é alimentada por grupos, como as Forças Armadas, os evangélicos que têm seus interesses no campos moral e que se fortalecem cada vez mais no momento da crise. Eles estão nos espaços populares onde a política se dá e a própria milícia está. A meu ver, a rede de apoio e a base política, cada vez que você bate, que faz confrontos, que traz elementos que atacam essa estrutura, eles reagem com mais agressividade. Essa dimensão golpista, de terceiros contra eles, sempre será trazida como se fosse a motivação para o golpe que eles podem dar.

É possível imaginar os próximos passos da investigação?

Depende de como a Justiça se comportará diante da prisão e das informações obtidas junto ao Fabrício Queiroz, de como o STF também se comporta nesse cenário. O Congresso está claramente prisioneiro de um jogo fisiológico de clientelismo, principalmente agora com o centrão, que vai prolongar seu poder no Congresso. A prisão do Queiroz, se trouxer de fato elementos que impliquem Jair Bolsonaro e a Flávio, aí podemos ter um cenário mais contundente. Era uma prisão desejada, há muito tempo estava se prolongando. Talvez nessa conjuntura de maior confronto com o Judiciário, os órgão ligados à Justiça e as investigação se aproximam da família Bolsonaro. Vamos ver o que esse depoimento vai trazer.

Há um motivo para se duvidar de uma lentidão proposital?

Você tem os 13 celulares do Adriano Magalhães da Nobrega desde fevereiro nas mãos da Justiça do Rio de Janeiro, com Wilson Witzel (PSC), que até agora não foi mostrado, nada, nenhuma informação. É um absurdo, você tem informações muito rapidamente hoje. Isso, a meu ver, é um jogo, uma negociação que está rolando em um ano eleitoral que é decisivo para o futuro políticos de vários grupos. É nesse ano que você tem a municipalização, que se constrói base para daqui dois anos, a perpetuação de projetos de governo do estado e do presidente.

O jogo hoje feito com o centrão em função da pandemia é de doações financeiras, de emendas, de verbas para a saúde que vão ser utilizadas e obtidas pelos apoiadores da estrutura do governo federal para ser usada com suas bases para perpetuação em 2022. Pode ter 10 mil pedidos de impeachment no Congresso que não vão acontecer nesse momento. É o momento de obter grana do governo federal para proteger as bases eleitorais e reforçar os laços políticos eleitorais dos congressistas. Esse ano não rola, de forma alguma, seria suicídio político para o grupo que assim funciona e atua.

E futuramente?

Pode estar sendo projetado para o ano que vem, vai depender de como andarão esses elementos. Se entrar um fator jurídico, legal, de comprometimento real do poder, de vínculo tanto com crime das rachadinhas e estrutura da milícia no Rio de Janeiro como a questão do assassinato da Marielle Franco, se tiver essas informações presentes, aí sim pode ter impacto. Depende de como a Justiça faz. Ela pode protelar, como tem feito muito. São táticas da própria Justiça que não quer fazer o confronto. Se o cenário hoje é de maior confronto, isso pode acontecer. Depende desse jogo político. O cenário que está posto não é de fácil análise, mas, aparentemente, não traz tantos benefícios para se combater Bolsonaro. Não vislumbro uma mudança real no poder que está no governo central.

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