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Quando aliados se devoram e eleitor cobra a conta

No vocabulário clássico, fratricídio é o ato extremo de um irmão matar o outro. Na política, o conceito é menos sanguinário, mas não menos devastador. Trata-se da implosão de alianças, da guerra interna que transforma parceiros em algozes e abre crateras difíceis de fechar. É exatamente esse espetáculo que se desenrola hoje na Câmara Legislativa, com João Hermeto e Wellington Luiz, ambos do MDB, protagonizando um duelo que mais lembra um ajuste de contas do que um embate institucional.

De um lado, Hermeto carrega o peso de acusações de “rachadinha” em seu gabinete, uma prática que, quando confirmada, corrói a credibilidade do mandato e joga na vala comum a já desgastada relação entre representante e representado. Do outro, Wellington Luiz enfrenta denúncias que beiram o escárnio urbanístico, com invasão de área pública, a construção de uma mansão e o descumprimento de decisão judicial para desocupação e demolição do imóvel. Em tradução livre, é o roto discursando contra o mal lavado, ambos com o guarda-roupa exposto ao sol do escrutínio público.

O problema, porém, não se resume ao campo ético ou jurídico. Ele é, sobretudo, político. Em vez de blindar a legenda e preservar o mínimo de coesão em ano eleitoral, os dois parlamentares optaram por travar uma guerra aberta, alimentando manchetes, fortalecendo adversários e entregando ao eleitorado um enredo de autossabotagem. A Câmara Legislativa, que deveria ser palco de articulação, propostas e construção de soluções para o Distrito Federal, transforma-se em arena de vaidades feridas e denúncias cruzadas.

E aqui reside o ponto central, indicando que fratricídio político não produz vencedores. Ele apenas antecipa derrotas. Ao expor suas fragilidades de forma pública e reiterada, Hermeto e Wellington Luiz não apenas desgastam suas próprias imagens; arrastam consigo o partido, fragilizam a instituição e ampliam o descrédito da política como instrumento de transformação.

Em Brasília, onde o eleitor já demonstra sinais claros de impaciência com escândalos recorrentes, esse tipo de embate tende a ser cobrado nas urnas. Outubro se aproxima como um tribunal silencioso onde o veredito é o voto, onde não há direito a recurso. E, ao que tudo indica, os jurados serão implacáveis ao entrarem na cabine de votação. O fratricídio não deixa apenas escombros, mas põe à mostra novos nomes, na esperança sempre renovada de que a próxima legislatura esteja à altura da capital que representa.

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