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Queda de Orbán na Hungria é o dever de casa para o Brasil

No domingo, 12, um feito histórico, que para muitos pode passar despercebido, se reveste de um simbolismo de amplitude mundial: a derrota da extrema direita na Hungria, após 16 anos de governo do extremista Victor Orbán, ícone da extrema direita global, aliado de Trump e ídolo da família Bolsonaro. Embora o vencedor seja de direita, na campanha eleitoral demonstrou ser afeito à democracia, aos direitos humanos e à liberdade de expressão, valores que Orbán minou profundamente na Hungria.

A Hungria pode ser considerada um pequeno país, se considerarmos PIB, dimensão territorial e tamanho da população. Porém, em função de sua localização estratégica, na Europa Central entre o gigante russo e os países mais importantes política e economicamente da Europa, como Alemanha e França, desempenha um papel importante, sendo um corredor do tráfego de energia, especialmente o gás, que abastece os países europeus.

A União Europeia vê nesta eleição uma possibilidade de ação mais concreta e assertiva em apoio à Ucrânia na guerra contra a Rússia, pois Orbán, o primeiro ministro derrotado, é apoiador de Putin e tem sistematicamente usado seu papel para dificultar ajuda europeia à Ucrânia, em face das cláusulas da União que dependem de voto favorável de todos os membros para a implementação de políticas como esta.

Ocorre que a Hungria, assim como diversos outros países da Europa, depende de energia russa, principalmente o gás. Por isso, embora a partir de junho haja um novo governo naquele país, não será tão simples uma mudança de postura húngara quanto à questão da guerra Rússia-Ucrânia, pois o país pode ser severamente impactado com a súbita suspensão do fornecimento russo, que certamente pode retaliar caso a Hungria altere radicalmente o papel que joga nestas relações.

Se para a União Europeia pode não significar uma mudança drástica quanto à questão do conflito, para a população húngara e para a democracia no continente, certamente haverá uma guinada importante, pois Orbán foi aos poucos moldando as instituições do país aos seus interesses e erodindo por dentro o sistema democrático. Ele chegou ao ponto de expulsar instituições de ensino do país, por causa do papel relevante desempenhado pelas universidades na formação da consciência crítica, movimento que caracteriza a extrema direita mundialmente, sua aversão ao livre pensamento, à educação livre e à democracia.

Simbolicamente, outro aspecto relevante revelado pela eleição húngara é o papel de rejeição ao modelo Trump de relação com o mundo. Trump, além de todas as ações internas nos EUA contra as universidades e outras instituições necessária para uma plena democracia, trata outros países como subalternos devedores de favores aos EUA, e assim, não teria aliados e sim subservientes. A Hungria se insere nesta visão de Trump, e o governo dele atuou para tentar nova vitória de Orbán. Não à toa o vice-presidente dos Estados unidos, JD Vance, esteve pessoalmente na Hungria para levar o apoio do governo dos EUA a ele. Com o resultado, a Hungria se junta a outros países em que candidatos de direita apoiadores de Trump têm perdido eleições, como ocorreu no Canadá em 2025.

A derrota de um ícone da extrema direita mundial como Orbán abre um precedente importante para o avanço das forças democráticas, e para o Brasil é um sinalizador simbólico da importância de se defender a democracia, a liberdade, a ciência, o meio ambiente, a cultura, os direitos humanos, a diversidade, enfim, um país que não pode se render ao obscurantismo, ao negacionismo e barbárie que caracterizaram o governo da extrema direita no Brasil representado pela figura escatológica de Jair Bolsonaro.

Neste ano em que o Brasil passará por um teste fundamental em sua democracia, se colocam em disputa forças, de um lado aquela que representa a vida e a democracia, e de outro aquela que representa a destruição, a anticivilização e a morte como ficou claramente demonstrado na abordagem do governo de Bolsonaro à pandemia de Covid. Assim como ocorreu no Canadá e na Hungria, tomara Deus que os eleitores brasileiros tenham a clareza de rejeitar nas urnas os aliados de Trump no Brasil e de sua cruzada anticivilizacional.

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Antonio Eustáquio é correspondente de Notibras na Europa

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