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Queiroga nega o que Brasil sabe e garante cargo

Nesses dois últimos dias, os gramados do Palácio do Planalto e da CPI da Covid estiveram abertos somente para treinamento. Mesmo assim para uma plateia muito restrita. De um lado, o presidente da República negou o óbvio ululante com as insinuações de que o vírus pode ter sido criado pela China como pano de fundo para uma fantasiosa e hilária guerra biológica. Claro que foi mais uma bravata, tanto que, logo depois, desmentiu o besteirol. De qualquer maneira, a cortina de fumaça atingiu o objetivo maquinado: dividiu o foco com coisas muito mais sérias, que são as numerosas investigações contra a administração pública e privada. Não me inclui – muito menos os chineses – na seleta lista de supostos e felizes enganados contumazes.

Mais uma vez, foi tudo culpa da imprensa maldosa. Me lembrei dos tempos de criança, quando xingava os mais velhos e fortes, mas acabava chorando e negando tudo ao ser pego na primeira curva da rua principal. Era apenas uma questão de tempo. Meninos não costumam sustentar nada do que dizem. Portanto, acreditam neles quem quiser. O problema é que os mais vividos e a diplomacia da China até podem engolir o que ouvem, mas jamais esquecem o que foi dito. Como no “seríssimo” jogo do bicho, vale o que está escrito. Não é demais ratificar que nem mesmo a água do mar consegue apagar ou rasurar registros em papel ou memorizados pelo povo. E, tenham certeza, tudo será cobrado um dia. Talvez não sejamos nós – eu e meus pretensos leitores – os devedores dessa complicada dívida.

Do outro lado da rua, um ensaboado e evasivo ministro da Saúde fez de tudo para não responder o que lhe foi perguntado. Na verdade, valeu-se do impossível para esquecer a crise sanitária e manter o questionado emprego. De modo ainda mais didático, não disse nada. Tomou o “precioso” tempo dos senadores, ocupou espectadores e telespectadores ávidos por notícias alvissareiras e limitou-se a divagar sobre a sexualidade dos anjos. Durante cerca de nove horas, o reconhecido médico Marcelo Queiroga desprotegeu a retaguarda, fingiu se esquecer deliberadamente do script da comissão e preferiu jogar no fundo da lixeira uma alentada biografia, além de vários e elogiados estudos científicos.

Os singulares objetivos – não se comprometer e evitar o emparedamento definitivo do presidente – são conhecidos de todo planeta, inclusive pelos chineses, nosso maior parceiro econômico e principal fornecedor de insumos para produção de vacinas contra a Covid-19. O apego ao cargo só não foi mais relevante do que a necessidade de varrer para baixo do tapete as omissões e os desacertos do governo em relação a pandemia. Fez o possível para agradar ao chefe, mas colidiu frontalmente com a ciência e com todos aqueles que criticam o negacionismo e cobram soluções concretas para conter essa e futuras cepas. Como consequência, desagradou a Deus, mas fechou com Mamom, figura bíblica que significa literalmente dinheiro ou riqueza, isto é, poder

Marcelo Queiroga tergiversou e irritou o quanto pode. Fugiu do milagreiro termo cloroquina como o diabo da Cruz e os vampiros do alho e, em raros momentos de lucidez, teve a preocupação de falar contra a continuidade do uso de tubaínas. Claro que as evasivas do ministro não surpreenderam os senadores. Eles sabem há pelo menos um ano e dois meses que a cloroquina permanece na lista de medicamentos milagrosos contra a coronavírus. O governo também tem conhecimento de que o “remedinho” é um dos principais temas da investigação da CPI como parte do negacionismo oficial.

Voltando às obviedades, certamente o show de omissões do ministro não conseguiu esconder mais uma confirmação: enquanto recomendava cloroquina, o governo não comprou vacina. Além disso, escondeu a inutilidade da tubaína contra a Covid e os efeitos colaterais do chamado tratamento precoce. O resultado? Até agora, 417 mil pessoas transformadas em números e 15 milhões de infectados. É pouco? Simpáticos à manutenção do cargo de Queiroga, os senadores não verbalizaram, mas duvido que não tenham pensado naquela máxima de que vale tudo para preservar ideias ou ideais, inclusive ações impensadas. Inaceitável na CPI ou em qualquer outro ambiente é tentar defender o indefensável.

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