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Quem chega aos 70, muda de face, forma e fase, mas mantém sonhos

Um certo dia dos anos 70, um cidadão uruguaio escreveu uma letra que ficaria marcada para a moçada da época. Os anos eram de chumbo. Por isso, foi um marco para aquela geração ouvir de um estrangeiro, ainda no limiar da ditadura militar, que nós estávamos inventando a vida, como se antes nada existisse. E o apelo se seguiu com os versos “Porque nascemos hoje do nada, porque nascemos hoje para o amor. Nós estamos descobrindo os corpos, como a manhã descobre as imagens…” Esse era o Brasil do milagre econômico, a música era Geração 70 e o compositor e intérprete o então jovem Taiguara Chalar da Silva, uruguaio de berço, mas brazuca de coração.

Depois de dois exílios no exterior, ele morreu em 1996, aos 50 anos. Uma das maiores vítimas do regime dos generais, Taiguara, entre 1970 e 1974, teve dois discos completos empastelados e 68 de suas 140 canções vetadas pelos ditadores. O argumento foi o mesmo utilizado pelo mito da pororoca para tentar se perpetuar no poder: o atentado à moral e aos bons costumes. Taiguara partiu, mas ainda vive graças aos sucessos que os mais velhos jamais esquecerão: Universo no teu corpo, Viagem, Hoje, Teu sonho não acabou, Paz do meu amor, Que as crianças cantem livres, Modinha e Cavaleiro da esperança, feita em homenagem a Luís Carlos Prestes, entre muitas outras.

Como o patriotismo nos obrigava a ser ufanistas, isto é, tínhamos de amar o Brasil acima de qualquer outra coisa, inventar a vida nos anos 70 significava nascer de novo, recomeçar do zero. Foi o que muitos dos meus fizeram. Fiz parte da turma do cérebro eletrônico, hoje banalizado sob a alcunha de computador. Nos últimos anos, com o avanço da tecnologia e de novos estudos, o tempo de uma geração foi reduzido de 25 para dez anos. Tudo a favor. Depois da minha, várias gerações se seguiram, inclusive a do sexo livre, a do inconformismo, da rebeldia, da irreverência, a do pé na jaca e a da Coca-Cola.

Nada a declarar sobre a da Inteligência Artificial. De alguma maneira, participei de quase todas com alguns pitacos e sempre ouvindo Taiguara, Caetano, Gil, João Gilberto, Chico, Tom Zé, Jards Macalé, Gal, Raul, Belchior, Fagner, Novos Baianos e os papas da MPB, além da nata do rock internacional. Cultural e melodiosamente, minha geração foi muito bem servida. Tanto que ainda hoje os artistas, as músicas, as novelas, as peças teatrais e os desportistas de então são lembrados como divisores de água. Apesar do tempo, permaneço de verdade. O que posso dizer é que, quando dei por mim, a vida havia passado.

Apesar dessa constatação, sou um jovem que não morreu. Enfim, o mundo está envelhecendo e, sinceramente, não há nada mais moderno do que ficar velho. Que bom lembrar que tecnologia era sinônimo de rádio de pilha e, para uma minoria, de radiola (rádio com vitrola) e de TV preto e branco. Particularmente, nunca me imaginei tentando descobrir novas direções para a existência em frente a um computador. Tinha coisas mais interessantes para descobrir e fazer. A criatividade era minha (certamente a nossa) principal arma contra o suposto marasmo dos longos dias e noites.

Normalmente eu buscava soluções caseiras e, às vezes, rueiras para problemas descomplicados, como, por exemplo, uma unha encravada, uma fimose inflamada, uma febre mal curada, um amor não correspondido e até uma pelada (nem tanto) perdida. Sonhava com o que podia e nem sempre acordava como devia. O tempo passou de repente, mas, felizmente, nada em mim mudou. Hoje, após tantos natais e anos novos, notei que a vida não é mais a mesma. A idade chegou e só agora percebo que mudei de face, de forma e de fase. Entretanto, o dever foi cumprido e meu sonho não acabou. Como na vida tudo passa, mas nem tudo a gente esquece, a sensação mais agradável é a certeza de que éramos felizes e sabíamos.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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