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Respeito e aceitação às diferenças são conceitos básicos da democracia

Reprodução/Arquivo Notibras

O que seria da Terra se seus 7,5 bilhões de habitantes só gostassem do azul ou do vermelho? O que seria do futebol brasileiro se todos torcessem pelo Flamengo? E o que seria da política se não houvesse oposição? Seria o mesmo que um homem sem mulher. Ou vice-versa. Na visão dos poetas do cotidiano, se não fossem as dificuldades, tudo seria fácil. No Brasil do Jair que acha que o eleitorado nacional nunca mais terá um outro Bolsonaro, oposição é sinônimo de ódio, de raiva, de impaciência, de feridas incuráveis e, às vezes, de letalidade.

Tristeza maior é imaginar os radicais sem lastro ruminando uma derrota que até hoje eles avaliam como injusta. Vem daí a ideia equivocada de poder que eles passam para o mundo. Tenho a nítida impressão de que na cabeça dos destronados há a exigência diária de mostrar a seus eleitores que o que foi prazer tornou-se um fardo nas mãos do vencedor. Coisas de perdedor que não sabe perder. É a inquieta necessidade de esconder do grande público as tentações da irresistível tirania. Para esses, apenas a máxima de Victor Hugo: “O mal é como as mulas: teimoso e estéril”.

Eles não ouvem, mas, se ouvissem, eu radiofonizaria a ideia de que a política é como masturbação. Uns fazem com a direita, outros fazem com a esquerda, mas, no fim, o prazer tende a ser igual para todos. Está escrito na Bíblia Sagrada que há tempo para tudo. É esse tempo que estabelece que o inimigo de hoje pode ser o aliado de amanhã. Ou seja, a rivalidade sem malícia, sem ódio e sem prejudicar o próximo pode trazer benefícios para todos.

Como diriam os pensadores contemporâneos, melhor seria se a rivalidade gratuita entre o extremismo polarizado pudesse ser transformada em alguma coisa meramente competitiva e absurdamente colaborativa. Parece impossível imaginar o Brasil de Luiz Inácio e de Jair Bolsonaro marchando na mesma direção do bem coletivo. Como eles não são eternos, tudo é possível. Considerando que, quando honesta e com princípios, a existência da oposição significa a busca de uma direção madura, consistente e convergente.

Considerando que tudo evolui, que não há fatos eternos, tampouco verdades absolutas, sugiro uma longa reflexão acerca de tudo que está bem diante de nosso nariz. Vale lembrar que, além de longa, a luta para que consigamos enxergar nossa cumplicidade com tudo que é ruim deve ser constante. Por conta de nossas imprecisões a respeito da vida, talvez precisemos reencarnar dez ou 20 vezes para entender que, mesmo ante a inércia do Estado ou tendo de enfrentar os antagonismos da política, a sociedade sempre acaba vencendo.

E o que falta para que tenhamos certeza de que a admiração, o respeito e a aceitação são pressupostos básicos da boa convivência com o próximo, principalmente com os diferentes? São esses conceitos que escondem o segredo da paz, e o valor da vida. Tudo a ver com a democracia plena. Conforme o pensador italiano Norberto Bobbio, um dos maiores filósofos do século 20, a democracia é idealmente o governo do poder visível, isto é, do governo cujos atos se desenrolam em público e sob o controle da opinião pública. Pensemos nisso antes de atirar pedras e tomates podres sobre os que achamos ruins somente porque um dia contrariaram nossos interesses.

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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais

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