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Resposta que Clodovil nunca deu a pergunta que Ayres Britto jamais fez

Nem tudo que a gente ouve ou lê merece o incondicional crédito, tampouco o absoluto descrédito. Na prática, o que se vê, ainda que com alguns exageros e utilizando exaustivamente a licença poética, precisa ser contado. Trabalhei em três dos cinco tribunais superiores do país, entre eles o Tribunal Superior Eleitoral. Aproveitando a veia poética do ministro Carlos Ayres Britto, a quem servi no TSE, criei algumas histórias saborosas, as quais, acredito, ele nunca ouviu. Uma delas envolveu, respeitosamente, Clodovil Hernandes, que, paralelamente à moda, iniciou carreira na televisão como apresentador, tendo passado por diversas emissoras, onde construiu a fama de polêmico, contraditório e “sem papas na língua”.

Assumidamente homossexual, Clodovil teve formação cristã e posições conservadoras, atraindo críticas de movimentos LGBT por ter sido contra o casamento gay, embora fosse a favor da união civil de pessoas do mesmo sexo, e contra a Parada Gay, por associá-la com prostituição e drogadição. Eleito por um partido, Clodovil optou por outro logo após a posse como um dos deputados mais votados daquela eleição. Judicializada, a troca virou um processo contra ele. Parte na causa, o parlamentar solicitou uma audiência com o relator, ministro Carlos Ayres Britto.

Marcada data e horário do encontro, o tribunal literalmente parou para receber Clodovil, também conhecido por suas declarações consideradas impróprias e, às vezes, indelicadas. Usei tudo isso na minha fictícia narrativa aos colegas e assessores da Casa imediatamente após o tête-à-tête. O deputado chegou todo paramentado, com terno caramelo, chapéu Panamá, sapatos bicolores sem meia, bengala e echarpe de seda pura. Realmente um arraso. Britto passou o bastão da presidência da sessão a Joaquim Barbosa e o recebeu na sala repleta de fãs do deputado. No sofá principal, apenas os dois.

Eu me mantive a uma distância razoável. Concluída a real e formal conversa de aproximadamente 20 minutos, o ministro resolveu quebrar o gelo. A verdade verdadeira acaba por aqui. Justificando a exceção de receber somente uma parte, lembrou ao parlamentar o fato de também ser poeta e declamou a famosa frase do genial Albert Einstein, para quem uma mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original. Sentado com as pernas cruzadas, Clodovil, sorrindo entre os dentes, respondeu: “Ministro, o caneco também. Ha, ha, ha”. Ayres Britto sorriu, mas, sinceramente, não sei se ele ouviu o inteiro teor da resposta ou se, de fato e de direito, entendeu a brincadeira.

Por unanimidade, o tribunal absolveu o deputado, que morreu meses depois desse episódio marcante. Partiu com a alma lavada e deixou Carlos Ayres Britto com a consciência ensaboada e enxaguada com o nobre gesto. Sem deixar descendentes ou herdeiros, Clodovil registrou em testamento o desejo de doar seu patrimônio para criação de uma fundação para ajudar meninas carentes e abandonadas. Em 2011, foi criado o Instituto Clodovil Hernandes para preservar a memória do artista. Mais de dez anos após sua morte, os bens do espólio, avaliado inicialmente em R$ 4 milhões, continuavam bloqueados na Justiça por processos e reivindicações. Dívidas e custos de manutenção consumiram a maior parte do patrimônio. Mansão em Ubatuba e Cotia foram leiloadas, mas o inventário permanece inacabado. Uma pena!

Em um outro despacho coletivo, Carlos Ayres recebeu de um assessor um convite de casamento. Mais uma vez buscou Sócrates para, segundo ele, desanuviar o ambiente. “Meu conselho é que se case. Se você arrumar uma boa esposa, será feliz; se arrumar uma esposa ruim, se tornará um filósofo”. Também lembrou de uma resposta do fundador da filosofia ocidental ao amigo Alcibíades, que queria saber se o casamento era preferível ao celibato. Atualizando a conclusão filosófica, a decifração é: “Casar ou ficar solteiro? Qualquer que seja a decisão, virá o arrependimento”. A literatura moderna afirma que o polêmico Alcibíades, o jovem mais belo de Atenas, apaixonou-se por Sócrates, o velho mais feio da Grécia antiga, no Banquete de Platão. Não sei informar se o assessor se casou.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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