Chato, pendular e cada vez mais desproposital, a quem interessa o debate sobre direita e esquerda? A nós, simples eleitores? Claro que não! A direita ou a esquerda só existe em nossas cabeças, porque, no fim das contas, já tem seu lado definido: o deles. Como me disse uma vez um desses sábios que surgem e desaparecem como nuvens passageiras, vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido. Nem sempre como ouvinte ou assistente, mas normalmente como vivente, sai ileso de um dos períodos mais negros da história política do país. Foram 21 anos de ditadura militar, época em que não havia meio termo: a direita fardada mandava em mim e, independente de meu posicionamento ideológico, minha obrigação era obedecer.
Como aprendi cedo que não adianta ser de esquerda ou de direita se não somos bons seres humanos, confesso ter ficado assustado com a sanha golpista do fim do governo Bolsonaro. Apesar da frustrada tentativa, a possibilidade de o Diabo reencarnar no Brasil na forma de capitão comprovou uma antiga tese desenvolvida a partir do conhecimento “pornográfico” dos escritos do Marquês de Sade. O motim foi controlado mais rápido do que o imaginado, os vândalos foram encurralados, os articuladores presos e condenados e os financiadores até hoje procurados. Depois do pavor, sobrou a certeza de que é por meio da dor que se chega ao prazer.
Hoje, Bolsonaro e sua trupe fazem parte de um passado também conhecido como futuro já usado. É apenas um ponto de vista. Talvez uma narrativa das mais prematuras. No entanto, não posso prescindir de uma máxima interior sobre a qual tenho usado diariamente o fundo dos meus olhos. Ainda não cheguei a lugar algum, mas estou convicto de que o fim será auspicioso. O que quero dizer é que, venha de onde vier, as respostas para o povo terão de ser convergentes. Por enquanto, a sensação é a de que o ocaso definitivo da extrema-direita no Brasil significa que chegará o dia em que os “outros” não terão escolha senão acreditar que o progressismo democrático é a melhor forma de poder.
Crítico de todas as formas de radicalismo, mesmo assim guardei as pedras que, anteontem, ontem e semana passada os tiranos espalharam pelo meu caminho. Um dia ainda farei delas um belo castelo. É somente mais um ponto de vista, mas permaneço acreditando que chegará o dia em que, melhor do que ser de direita ou de esquerda, será seguir uma linha reta, aquela que nos levará a um governo sem preocupações com rupturas ideológicas. Enquanto isso não ocorre, uma das maiores imbecilidades políticas é entender que esquerda ou direita resolverão a vida do povo. No sentido horário ou anti-horário, elas andam em círculos. Se dessem as mãos e concordassem no bem comum, a humanidade progrediria em tempo recorde.
Seria a solidariedade prevalecendo sobre o egoísmo. Conforme a maioria dos pensadores, é discutindo sobre esses rótulos que marchamos em direção a coisa alguma. Exageros à parte, mas também baseado em quem pensa, eu diria que são retas concorrentes entre si, mas que se cruzaram um dia no ponto em comum da discórdia. Enfim, se os dois segmentos fossem tão ruins, um não precisaria do outro para bater palmas. Obviamente que há conceitos absurdos a diferenciar uma da outra. Por exemplo, segundo o filósofo italiano Norberto Bobbio, a direita considera a desigualdade social tão natural como a diferença entre o dia e a noite. A esquerda a encara como uma aberração a ser erradicada.
Como estamos no auge do conflito existencial entre as duas vertentes, não há como fugir das práticas de ambas. Certo ou errado, em última análise, o atual líder nacional faz o que qualquer mandatário deveria fazer: espalhar esperança. Metaforicamente, o presente é a sombra que se move separando o ontem do amanhã. Apesar dos rompantes da ex-atriz Regina Duarte, é nesse presente com nome e sobrenome que repousa a esperança. Defendo a união entre todas as correntes políticas. Todavia, consciente de que otimismo não é a ausência de problemas, prefiro lembrar que, quando perde uma eleição, a direita tenta destruir o país. Quando ganha, consegue. Em ordem invertida, 2022 e 2018 não me deixam mentir.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais
